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Um pequeno e deplorável retrato dos cursos d’água de Caldas Novas

O objetivo do texto abaixo não é o de denegrir a imagem de Caldas Novas. Gosto muito da cidade mas acredito que quem a frequenta deve estar ciente de que existe uma agressão há anos acontecendo e que algo precisa ser feito para reverter os danos provocados aos cursos d’água da cidade.

Estive recentemente na cidade de Caldas Novas e após uma expedição por dois córregos da cidade pude constatar uma triste realidade, a de que a maior estância hidrotermal do mundo não respeita seus cursos d’água.

Famosa pelas suas fontes de água quente, que todo ano atraem turistas de todo canto do mundo, e com uma rica hidrografia, Caldas Novas infelizmente está longe de ser uma cidade ambientalmente correta. Segundo dados de 2016 da ANA ( Agência Nacional das Águas), a cidade coleta e trata cerca de 41% de seus esgotos, outros 15% são depositados em fossas e/ou tratados por ETEs próprias e o restante, assombrosos 44% são despejados diretamente nos cursos d’água da cidade sem nenhum tratamento. Quase 50% do esgoto de Caldas Novas vai in natura para os cursos d’água da cidade. Córregos como Capão Grosso, Caldas, Saia Velha, Açude, Fundo e rio Pirapitinga, recebem esgotos não tratados diuturnamente.

cursos_dagua

Na alta temporada o problema se torna ainda mais grave pois, com mais pessoas na cidade, mais esgotos chegam aos mananciais. A expansão imobiliária aliada a um crescimento desordenado da cidade, falta de investimento em saneamento e desrespeito a legislação fazem com que a situação se agrave ano após ano. O problema muitas vezes chega aos narizes dos turistas que se incomodam com o cheiro forte de esgoto que se espalha pela cidade principalmente nas imediações do centro da cidade ou nas proximidades da ETE. Praticamente todos os mananciais de Caldas Novas apresentam algum tipo de degradação, que não se resume somente ao lançamento de esgoto.

Córrego Saia Velha

Entulho e muito lixo no leito do Córrego Saia Velha em Caldas Novas

O meu primeiro contato com o desrespeito as águas de Caldas Novas se deu na minha infância numa visita a um famoso clube da cidade. No alto de minha curiosidade, decidi descer até um córrego que passava bem nos fundos do clube. Um manancial de águas cristalinas com muita pedra e pequenos peixinhos que abundavam no local. Logo de cara havia um cano que despejava água quente das piscinas no leito do córrego. Até então tudo bem pra mim, pois eu não sabia que a água quente poderia afetar a fauna local devido a elevação de temperatura da água, que nem sempre pode ser suportada por alguns tipos de organismos. Fui percorrendo mais alguns metros do córrego quando me deparo com um cano que despejava incessantemente esgoto bruto dentro do córrego. Daquela cena me lembro até hoje, o odor, a cor da água, as algas. Tudo aquilo era novo pra mim, mas mesmo pequeno, com meus 9, 10 anos eu já compreendia aquela agressão. Não entendia, o porquê de se degradar algo tão bonito que poderia ser objeto de contemplação. Ainda não sei qual era aquele córrego mas minhas suspeitas recaem sobre o Caldas ou Capão Grosso.

Essas memórias do passado vieram a tona quase exatamente da mesma forma que antes: um manancial aparentemente limpo, bem conservado, recebendo esgoto bruto de hotéis e condomínios da região indiscriminadamente, isso mais de 20 anos depois.

Córrego Saia Velha

Córrego Saia Velha. Arquivo Pessoal

Pois bem, voltando aos dias de hoje relato como foi a expedição pelos córregos e o que vi. O início de tudo foi quando decidi fazer uma trilha que há no local e que levava até ao leito do córrego. Aparentemente tudo normal, mata exuberante e preservada, águas limpas, pequenos peixes e somente alguns resíduos plásticos típicos de regiões já urbanizadas.

Córrego Saia Velha

Córrego Saia Velha. Arquivo Pessoal

Chegando quase ao final da trilha percebi o encontro de um outro córrego com aquele que eu estava seguindo. Mas esse era diferente, suas águas exalavam um odor de esgoto e o fundo do córrego estava com uma cor cinza. Certamente em algum ponto haviam lançamentos de esgoto naquele manancial. Após uma pequena desorientação espacial devido as curvas dos córregos decidi seguir o córrego poluído a pé para ver se encontrava a fonte do problema.

Córrego Caldas

Córrego Caldas. Arquivo Pessoal

Caminhei durante vários metros, incomodado pelo cheiro forte de esgoto que se assemelha muito aquele odor de caixa de gordura. Em alguns pontos que a água estava mais revolta, como nas pequenas corredeiras, a espuma se tornava aparente. Em locais onde havia pequenos represamentos se formava uma crosta cinzenta que também lembrava muito o resíduo gorduroso que fica nas caixas de gordura. Ao longo do percurso também encontrei manilhas e mais pedaços de cano de PVC que se espalhavam ao longo da margem. Alguns canos haviam sido levado por enchentes e outros pareciam ter como papel o escoamento de água da chuva.

 

 

Depois de uma boa caminhada finalmente encontrei a fonte do problema. O cheiro era inconfundível e a aparência também. Estava lá o cano que soltava uma elevada carga de poluentes dentro do córrego, que agonizava com tamanha quantidade de dejetos que saiam dele. Uma erosão no local havia quebrado parte do tubo e o esgoto escorria como uma cachoeira para dentro do córrego, o solo próximo estava bem instável e a tendência era que o problema se agravasse. A única coisa interessante que encontrei naquele local foi um simpático marreco que se deliciava nas águas do córrego, claro que antes do lançamento de esgoto. Ele não era bobo!

 

 

Encontrada a fonte do lançamento, feito algumas imagens e vídeos bati em retirada em direção ao local onde eu estava. Mas algum tempo de caminhada, mais algumas fotos de detalhes que eu não havia captado e mais um tempo em meio àquela bela mata e envolto naquele cheiro repulsivo cheguei ao encontro do córrego Saia velha e Caldas. Apesar do córrego de maior vazão ser o Saia velha, o nome que continua é o Caldas. É interessante notar que as águas que correm dali em diante, ao menos aparentemente, dão a impressão de não ter recebido nenhuma carga de esgoto, e se o único lançamento tivesse sido o que eu encontrei a montante(acima) as coisas voltariam a ficar boas mais algumas centenas de metros abaixo. O fato é que adiante, mais um vez o córrego recebe outro duro golpe. O condomínio onde eu estava também batiza as águas do córrego com esgoto. Não consegui compreender se de uma fossa que transbordava ou de um lançamento direto de esgoto. De qualquer forma o que importa é que mais uma vez aquelas águas residuais impactavam o córrego que logo em seguida começava novamente a ter um aspecto desagradável com algas proliferando nas partes mais rasas por conta de nutrientes em abundância.

Não quis seguir além, pois eu sabia que mais a frente o ciclo se repetiria, mais condomínios, clubes e hotéis despejando seus esgotos sem pudor no leito do córrego, tudo com a complacência do poder público, sem culpa, sem punição. O leito se tornando cinzento e recebendo mais afluentes, tão poluídos quanto, como o córrego Capão Grosso que forma um lindo lago no clube do SESC infelizmente com águas completamente comprometidas pelo esgoto. O córrego Caldas segue seu curso passando por mais bairros até desaguar no rio Pirapitinga, pouco antes de uma belíssima corredeira do rio. E dali a poucos quilômetros atingindo o lago de Corumbá V. Nitrogênio e fósforo a vontade para algas e plantas aquáticas fazerem a festa.

Encontro córrego Caldas e rio Pirapitinga

Encontro córrego Caldas e rio Pirapitinga. Fonte: Google

No plano diretor de Caldas Novas já se previa a proteção, preservação e recuperação das águas da bacia do rio Pirapitinga, mas até o momento muito pouco foi feito.

E pensar que no nome de alguns desses condomínios existe o prefixo Eco. Poderia o caro leitor pensar que fosse de ecologia, mas não, está mais para eco de nojo mesmo. Com tanto espaço disponível por que não criar fossas sépticas, ecológicas ou ETEs que tratem o resíduo antes de lança-lo ao córrego? É triste ver um ambiente muito bem conservado, com mata preservada e águas transparentes e limpas se tornar um verdadeiro esgoto de um momento para outro por conta de falta de vontade e investimento de condomínios e hotéis para resolver a situação, porque nesse caso a culpa não é apenas da prefeitura. Devem pensar que pelo fato desses córregos não terem água quente eles não precisam estarem limpos. Perdem as águas, perde a fauna, perde a população, perdem os turistas, perde a cidade. Afinal quem ganha?

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Vazamento de esgoto e danos ambientais ao córrego saia velha

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