A urbanização acelerada e os nossos mananciais

Por Ernesto Augustus*

É triste ver ambientes até então preservados serem completamente destruídos, tudo em nome da urbanização sem controle.

Não sou e nunca fui contra urbanizar, até mesmo porque é inevitável nos dias atuais. O problema se chama urbanização acelerada. A questão é que o crescimento de uma cidade deve se pautar sobre o Desenvolvimento sustentável. Existe farta literatura sobre o assunto e o conceito deveria nortear as ações dos prefeitos. Planejar é preciso e nossos gestores públicos na ânsia de elevar a arrecadação de impostos liberam novos loteamentos nas cidades sem as mínimas condições ambientais. Se por um lado existem novos loteamentos, em muitos casos, com asfalto, água e energia elétrica, por outro não existe um sistema de drenagem adequado ou coleta de lixo regular, nem do lixo gerado pelas residências, nem para os resíduos gerados pelas construções que se iniciam a todo vapor após o período de comercialização dos lotes.

Aprofundando-se na questão da drenagem, existe um grave problema que gera um efeito cascata de proporções trágicas que é provocado pela impermeabilização da região, seja por asfalto, telhados ou concretos nas calçadas e pavimentos. As chuvas fortes geram um fluxo enorme de água que escorre superficialmente e atinge os mananciais mais próximos. Se por galerias de água pluvial ou não, na maioria das vezes, o manancial não possui capacidade suficiente para lidar com tamanho fluxo de água o que provoca o solapamento das margens e erosões. Sedimentos entopem o córrego ou rio, que assoreado se torna ainda mais letal para suas margens. Mesmo com a forte fixação das árvores nos barrancos, com suas frondosas raízes, a força da água é capaz de derrubá-las e levá-las embora, arrasando com as matas ciliares. O manancial se torna um verdadeiro cemitério de árvores, completamente raso e com erosões enormes.

A consequência disso, além da completa destruição do córrego é a atitude desesperada por parte proprietários de chácaras ou lotes na beira que para não perder parte de seus terrenos começam a aterrar as margens do córrego com entulho. Um crime ambiental grave que não surte efeito algum já que é um material instável e quando as águas vem com força elas carregam todo o entulho depositado. Mais sedimento vai para o leito do córrego, que agora além de areia possui restos de construção, tais como vidro, azulejos, tijolos, telhas, arames e toda sorte de material que venha a provocar danos a fauna e a flora local, inclusive um risco para aqueles que porventura frequentam o local para banho ou apenas para contemplação, já que o caminhar nas margens também representa um risco.

Recentemente estive no córrego Saco Feio no município de Aparecida de Goiânia e foi justamente essa a realidade com que me deparei. Um córrego cheio de restos de construções, raízes de árvores a mostra, outras caídas e muito lixo plástico agarrado às árvores e suas raízes. Enquanto eu caminhava pelo leito do córrego, bem assoreado por sinal, tive um corte no dedo provocado por um azulejo que estava dentro da água.

Esse córrego faz parte de um ambiente que está sofrendo uma urbanização acelerada, principalmente relacionada à pavimentação de ruas. É uma área urbana, porém, não muito impermeabilizada e por isso é possível ainda observar essa transformação que o córrego está sofrendo e que fatalmente irá levá-lo a sua completa descaracterização em poucos anos. Há alguns anos, em virtude de um fluxo intenso das águas do córrego, provocado pela chuva, uma ponte foi levada, deixando os moradores do bairro Madre Germana I sem seu principal acesso por alguns meses.

O córrego Saco Feio nasce na região do bairro Jardim Tropical e ao longo do seu leito existem muitas chácaras e milhares de pequenas nascentes que vão dando forma ao córrego. Ele é um dos afluentes do rio Dourados pela margem esquerda, na altura do bairro Jardim dos Ipês em Aparecida de Goiânia. A bacia do rio Dourados é extremamente bela, mas infelizmente a urbanização está avançado a todo vapor sobre ela. O Dourados é um rio altamente frequentado por banhistas, principalmente no distrito de Nova Fátima e está sob o risco de se tornar mais uma vítima da urbanização sem controle e sem planejamento.

É possível evitar o pior? Sim, claro que não evitaremos alguns efeitos danosos, mas os mais críticos são possíveis de minimizar. Entre as maneiras está a construção de piscinões que freiam o fluxo da água que vai para o córrego, segurando os sedimentos e resíduos e fazendo com que a água chegue de maneira mais contida ao leito do manancial. A manutenção desse tipo de estrutura deve ser constante para evitar que ele perca sua capacidade de controle do fluxo e dos sedimentos. Nas áreas já acometidas de erosões nas margens deve-se fazer a estabilização desta com o uso de gabiões, aterros e o plantio de árvores para recomposição da flora. Também deve ser feito um trabalho de conscientização junto a população para evitar a impermeabilização total de seus quintais, permitindo que pelo menos 20% continue permeável, além de conscientizar para a destinação correta do lixo e dos resíduos de construção. A prefeitura deve fazer sua parte inovando e utilizando tecnologias já disponíveis que permitem uma maior infiltração da água no solo,  realizando a coleta regular do lixo, realizando coleta seletiva, orientando a população através de um trabalho de educação ambiental e também construindo áreas de transbordo para resíduos, um local controlado para que a população possa destinar corretamente pequenos montantes de resíduos de construção, pneus e galhos de podas árvores. Ações como essa evitam que o manancial sofra o duro golpe da canalização. Não é complicado, basta apenas vontade, planejamento e ação.

* O autor é pós graduando no curso de Gestão, Perícia e Auditoria ambiental.

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