Você sabe o que são os campos de Murundu?

Campos de Murundu no Parque das Emas em Goiás. Fonte: Geoview

Você já ouviu falar dos campos de Murundu? Nem eu, até bem pouco tempo. Navegando pelo Google Earth durante uma aula que usava mapas, me deparo com uma estrutura diferente, no município de Abadia de Goiás, que precedia uma área de nascentes. Mostrei a professora que imediatamente me disse que o nome da estrutura era Campos de Murundu que inclusive são protegidos no estado de Goiás, dada a sua peculiaridade e utilidade para recarga do lençol freático. Os murundus também são conhecidos por  covais, monchãos ou  varjãos. Mas o que são os campos de Murundu?

Segundo o artigo 1º, parágrafos 2 e 3 da lei estadual goiana 16.153 de 26 de Outubro de 2007:

Os campos de murundus caracterizam-se pela ocorrência de solos hidromórficos, de coloração acinzentada permanentemente saturados por água, associados a presença de aqüíferos suspensos aflorantes e subaflorantes considerados também, como zona de recarga do aqüífero livre ou lençol freático. Os campos de murundus constituem área de reserva de biodiversidade, tanto da flora como da fauna. (1)

Agora vejamos qual a definição de alguns autores vinda de um excerto de um artigo publicado na Revista do CEAM:

Os Murundus são definidos formalmente por Araújo Neto (1981) como elevações semicirculares, arredondadas ou ovais, com dimensões médias de 10 metros de comprimento, 70 centímetros de altura e 6 metros de largura. Guerra (1993) define murundus como “termo usado no Pantanal mato-grossense para pequenas elevações circulares, com mais ou menos um metro de altura, por quatro a seis metros de diâmetro, tratando-se, possivelmente, de dunas incipientes.” Os campos de murundus, muito comuns e frequentes no cerrado, estão distribuídos normalmente em regiões associadas à presença de água no solo. Esses campos úmidos de microformas de relevo ocorrem geralmente em depressões ou topos de baixa declividade, próximos às nascentes dos cursos d’água, ou mesmo acompanhando a drenagem. Os campos de murundus possuem importância hídrica, pois as variações sazonais do nível do lençol freático, nessas áreas, garantem o fluxo superficial saturado em direção aos corpos d’água. Essas áreas funcionam áreas de nascentes/mananciais de tamanho variável (ARAÚJO NETO; BAPTISTA, 1995), ou seja, a partir das primeiras chuvas, o solo satura-se devido à baixa capacidade de infiltração ou ainda por causa de sua alta umidade antecedente, em função da proximidade do lençol freático à superfície, gerando escoamento superficial saturado em direção aos córregos e rios. Há controvérsias quanto ao significado do termo murundu e, principalmente, quanto à origem dos campos de murundus. A maioria dos autores relaciona a origem desse microrrelevo com processos erosivos associados à atividade biológica de térmitas (cupins) e de pequenos mamíferos roedores. Neste trabalho propõe-se uma hipótese de origem, baseada em trabalhos de campo, de observações de possíveis formações recentes, que se baseia em erosão diferencial e acúmulo de sedimentos. (2)

Em resumo, tem-se uma área extremamente sensível, de relevante interesse ecológico, que devido às suas peculiaridades criou-se leis, ao menos no estado de Goiás e no Distrito Federal para sua efetiva proteção.

Elevação típica dos campos de murundu. O que restou.

Sempre que algo me chama muita a atenção, principalmente relacionado a natureza, procuro ir até o local para conhece-lo de perto. Nesse caso não foi diferente. A região em questão se localiza no loteamento Goiânia Sul, no município de Abadia de Goiás. Não fica distante de onde moro, por isso foi bem tranquilo de ir até lá. Depois de dirigir por cerca de 15 Km e com auxilio de um GPS cheguei até o local e comecei a explora-lo. Infelizmente, de um campo de murundu original, muito pouco resta. A área está quase que completamente descaracterizada. Os montículos que caracterizam os Murundus foram quase todos destruídos. Passaram ruas por alguns pontos da área e casas foram construídas nas regiões mais na borda do campo.  Também observei 3 poços artesianos distantes de alguns metros entre eles na área dos Murundus. Provavelmente para abastecimento público. Detalhe, esses campos são raríssimos nessa região.

O que a lei 16.153 diz sobre ocupações nas áreas próximas aos campos de Murundus:

Art. 3º A supressão da vegetação e a utilização de áreas localizadas próximas a campos de murundus para drenagem, cultivo, pastoreio e outras atividades, devem atender as seguintes exigências:
I – manter um raio mínimo de 50 metros de largura ao redor das áreas de campos de murundus, podendo ser esta distância ampliada, de acordo com as peculiaridades locais, a partir de parecer técnico emitido após vistoria em
campo;

Pelo que vi no local, nem de longe essa exigência foi atendida, pois, além de não ter respeitado a distância mínima de 50 metros ainda se construiu no interior dos campos. Um detalhe, o loteamento começou a ser construído em 2012 e a lei é de 2007. Ou seja, legislação já havia. Resta saber se o que foi feito foi por desconhecimento ou por má fé.

O antes e o depois da destruição do campo de Murundus no município de Abadia de Goiás – GO. Imagens: Google Earth

Tirando o fato de ter se cometido um grave dano ambiental, o que também me chamou a atenção foi o afloramento de água no local. Para evitar a saturação do solo o responsável pelo loteamento construiu uma rede de manilhas que drenam os campos e concentram a água nas saídas dos tubos, que seguem formando um manancial afluente do rio Dourados. Na região por onde corre a drenagem também é muito comum se ver resíduos plásticos como PETs e sacolas presos às raízes de cipós e árvores. Típico das regiões urbanizadas da região metropolitana de Goiânia.

Os campos de Murundus são raros, na região onde o encontrei é mais raro ainda. São locais ricos em água e que são protegidos por lei. Qual será o impacto do loteamento para esse afloramento em alguns anos? Tende a diminuir gradativamente a vazão, vai secar por completo? Pretende-se utilizar as áreas para construções futuras, um parque? Uma praça? Ou uma área super importante protegida de fato pela população e poder público? São perguntas que só o tempo dirá.

Existe riqueza maior que a água? E por que nós a negligenciamos tanto?

A intenção desse texto é para que pessoas conheçam algo que quase ninguém tem noção e que está sendo perdido por puro desconhecimento. Que sirva de alerta. Aquilo que não conhecemos está sendo destruído e jamais saberemos se não tivermos informações!

 

Bibliografia:

(1) LEI Nº 16.153, DE 26 DE OUTUBRO DE 2007
(2) Revista do CEAM – Campos de murundus da Fazenda Água Limpa da UnB: Hipóteses de Origem

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