Série Mundo Paralelo – O Supermercado nas águas

supermercado nas águas

Os córregos e rios de grandes cidades, ou nem tão grandes assim, podem ser comparados a supermercados. Como assim? Explico. Na prateleira de supermercados, produtos de todo tipo, com embalagens das mais diversas, se amontoam a espera de um cliente que possa comprá-los e assim levá-los para casa, para serem consumidos e em seguida descartados. O normal seria que essas embalagens seguissem para um aterro ou para uma reciclagem por exemplo. Eu disse o normal, porque nem sempre é tão normal assim. Lembra-se do início quando eu disse que os córregos e rios podem ser comparados a supermercados? Pois é… Acredito que você já tenha matado a charada para onde essas embalagens diversas muitas vezes são encaminhadas.

Além do resto dos produtos, que após utilizados, voltam muitas vezes para dentro dos rios e córregos, sem o devido
tratamento, voltam as embalagens também. Inteiras, às vezes até com os rótulos. Temos a preocupação de mantermos nossas casas limpinhas, arrumadas, mas e depois? Pra onde vão os resíduos?

Convidei a srta. Valentina para dar uma volta comigo, Augusto, em um dos córregos de nossa cidade. Após um certo receio ela topou e fomos para o córrego Água Branca.

Ao chegar, Valentina se assustou. – Quanto lixo disse ela!
Retruquei: – Não é lixo, há poucos dias essas embalagens estavam na casa de alguém. Poderia ser até mesmo na sua.
– Mas eu sempre jogo as embalagens usadas no lixo.
Respondo: – Mas quem garante que seu saco não rasgou e os produtos caíram? O caminhão da coleta pode ter demorado a passar, veio a chuva, carregou seu lixo e trouxe para dentro do córrego.
– Veja, tem de tudo: produtos de limpeza, pneus, sacolas plásticas, garrafas de refrigerante, brinquedos.
– Penso que dá para fazer compras aqui dentro.
– As sacolas já servem para carregar os produtos, brinquedos e tudo mais.
– São tantos itens que até tive uma ideia! Encheremos as prateleiras de um supermercado fictício e ficaremos prontos para receber os clientes!
Ao que Valentina responde: – Ótima ideia, penso que a população não a tem a menor noção do que temos aqui. Nem eu tinha. Estou completamente atordoada com o rastro de sujeira que deixamos. E são lugares que deveríamos tratar muito bem, afinal de contas, a água é indispensável para nossas vidas.
– Então vamos ao trabalho. Eu fico com as embalagens de refrigerante, as latinhas e pneus. Você fica com as embalagens dos produtos de limpeza, as sacolas e os brinquedos.
– Mas Augusto, quem fica com mesas, peças de carro, monitores, cadeiras e até sofás?
– Valentina, se formos pegar tudo o que tem aqui dentro, precisaríamos de uma escavadeira e um guindaste pra levantar tudo.
– Vamos ficar com os menores mesmo. Vai ser o suficiente.

E assim eu e Valentina passamos o dia todo pegando coisas. Chamamos os amigos para ajudar-nos a montar as estruturas, como num supermercado, e expor tudo aquilo que conseguimos.

O grande dia chegou. Valentina e eu ficamos super ansiosos. Fizemos uma grande divulgação na cidade. Não informamos o verdadeiro motivo. Dissemos apenas que haveria um grande bazar com preços super atrativos. A população compareceu em peso mas para sua surpresa, o bazar era um mostruário inquietante do que temos sido capazes de fazer com os córregos e rios de nossas cidades.

Algumas pessoas ficaram revoltadas, acharam que tinham sido enganadas. O que elas não perceberam é que o engano maior é o cometido por nós mesmos, que tratamos de vestir uma roupa de invisibilidade nos nossos mananciais e esquecer que ali existe um problema que afeta a todos nós.

Felizmente a maioria das pessoas ficou do nosso lado e perceberam que aquele ali poderia ser o momento ideal para um novo pensamento, uma nova atitude. Que a omissão é um veneno, que envenena cada vez mais o nosso corpo e nossos pensamentos. Dali e diante se viu uma mudança radical das pessoas em relação ao modo como eles lidavam com as águas da cidade. Uma mudança para melhor que só trouxe benefícios para todos. As pessoas ficaram mais tranquilas, a saúde melhorou e até a violência caiu.

Eu e Valentina tivemos certeza de que algo ou alguém plantou aquela brilhante em nossas mentes. Voltamos ao córrego no qual tudo começou e nos pusemos a contemplá-lo. Para nossa surpresa, o córrego Água Branca nos agradeceu e nos disse que a semente já estava plantada em nossos corações, e que ao ver o sofrimento dele, a nossa semente germinou. Apesar de ser algo inusitado, um córrego falante, nós não nos assustamos, pelo contrário, emocionados a gente se abraçou e corremos para as águas do córrego, onde passamos a brincar como se estivéssemos dando um imenso abraço naquelas águas.

E assim vem a pergunta. E se córregos falassem mesmo, o que eles estariam querendo nos dizer?

Abaixo uma coletânea de estórias de um mundo paralelo e a natureza.

– Um dia de fúria
– O médico e o rio
– O parque e o rio
– Diálogo entre humano e peixe I
A saga de uma garrafa pet
A criança e a Serra
O Pequizeiro
– O lago

3 comentários em “Série Mundo Paralelo – O Supermercado nas águas

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