Série Mundo Paralelo – O Pequizeiro

pequizeiro
Pequizeiro reina soberano em meio a pastagem. Flores do pequi, Frutos e interior do fruto com castanha a mostra.

Em minhas caminhadas pelo Cerrado é muito comum encontrar nos campos verdinhos, por onde pastam os gado, somente os pés de pequi. Com suas folhas grandes e seu tronco torto, o pequizeiro se destaque em meio aquele cenário desnudo. Na época da floração, o pé de pequi produz flores belas, encantadoras e cheirosas, flores que atraem pássaros, insetos ou morcegos para polinizá-las e assim continuar o ciclo que finaliza na produção do fruto, o pequi. Um fruto cuja casca verde, guarda uma polpa amarela clara por dentro e um caroço com um invólucro suculento de cor amarela escura ou laranja, de todos os tamanhos.

Sabendo de algo muito ruim que estava por acontecer, um pé de mangaba começa um dialogo com um pequizeiro amigo que se encontra próximo.

– Hei pequizeiro, tudo bem? Ficou sabendo da maior?

– Não mangabeira, estou por fora, o que há?

– Vão fazer um condomínio de humanos aqui, fiquei sabendo que será um extermínio.

– Nossa mangabeira, meus parentes me disseram que aconteceu isso há um tempo atrás ali pro norte, só restaram eles e os ipês, por isso fiquei sabendo. O meu primo pequizeiro disse que não iriam desmatar mais porque queriam áreas verdes ao redor do condomínio deles. De certo mudaram de ideia e isso é uma pena.

– É pequizeiro, realmente, preciso curtir os meus últimos momentos de existência. Creio que o desmatamento vai me causar uma morte horrível, com muito sofrimento.

– Penso que serei atropelada e arrancada pela raiz por aquelas grandes máquinas que os humanos inventaram em nome do progresso.

– Justo eu que tenho meus quase 150 anos de idade. Sou pequena mas sou antiga, já vi tanta coisa, já alimentei pássaros, já dei remédio para humanos antigos, ajudo a infiltrar a água da chuva. Nossas outras companheiras, a Mutamba, o Murici do Cerrado, o Araticum, a Cagaita e mais tantas outras também estão com seus dias contados.

– Talvez só você e seus parentes fiquem aqui, pequizeiro. Sabe, sinto uma pontinha de inveja por não ser um pé de pequi. Sei que a inveja é um sentimento feio, mas nesse caso, foi algo que despertou em mim.

Disputado principalmente nas feiras livres, em tempos de escassez, seus valores podem chegar a preço elevados. O fruto do pequi tem um gosto acentuado, é consumido cru ou cozido e se não souber como se come, pode provocar trauma nos incautos que tentam morder a semente um pouco além da polpa. O pequizeiro protege bem o seu tesouro, a castanha que se encontra no núcleo do caroço, de gosto delicioso, é envolvida por um mundo de espinhos pequeninos, que se mordidos, vão causar um incomodo enorme dentro da boca do descuidado, que muitas vezes precisa parar em centros de saúde para que os espinhos possam ser removidos.

– Sabe pequi, admiro você por tudo o que você representa. Pena a maior parte dos seres humanos conhecerem tão pouco sobre nós. Mas um dia eles se arrependerão do que estão fazendo conosco.

– Nossa Mangaba, estou chorando por você. Estou triste. Vou ficar sozinho aqui. Não tem graça nenhuma ficar aqui sem ninguém por perto, alguma árvore pra poder conversar ou mesmo me proteger contra o vento, predadores, doenças. Vou sentir tanto, ficarei eternamente em luto pela perda de vocês.

– Se eu pudesse me levantava daqui e impedia que fizessem o mal a qualquer uma de vocês. Mas como sabemos, não saímos daqui, e esses bípedes fazem o que bem entendem.

– É pequizeiro, deixa eu respirar esse ar, sentir as gotas de chuva, enquanto posso.

Devido a essa joia que o pequizeiro e seu fruto o são, ele é umas das únicas árvores do Cerrado que são poupadas com o avanço da agricultura e da pecuária sobre a biodiversidade riquíssima do Cerrado, que aos poucos vai se extinguindo.

Autor: Ernesto Araújo

Abaixo uma coletânea de estórias da série mundo paralelo e a natureza.

– Um dia de fúria
– O médico e o rio
– O parque e o rio
– Diálogo entre humano e peixe I
A saga de uma garrafa pet
A criança e a Serra

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