Fazendeiros Brasileiros estão entre os principais devastadores da floresta do Chaco no Paraguai

Antes de iniciar a reportagem que é do The New York Times, eu gostaria de chamar a atenção para dois pontos importantes no trecho: O primeiro ponto é que nós humanos, nos sentindo inseguros em relação ao animais que habitam as matas, tratamos de eliminá-los para nos sentirmos mais “seguros”, acredito que devemos ter muito mais medo de nossa própria espécie do que de qualquer outro animal. É incrível o sensacionalismo que provocamos ao vermos uma imagem de um ataque de uma onça pintada, tubarão, cobra e por ai vai, quando todos os dias nos grandes centros temos várias mortes provocadas por assaltos, vinganças, dívidas de drogas ou por motivo bobo.

O segundo ponto é a frase de um fazendeiro brasileiro chamado Nelson Cintra que diz: “Os ambientalistas se queixam de desmatamento, mas o mundo tem bilhões de bocas para alimentar”. Esse é o clichê mais sem vergonha utilizado por fazendeiros. Existem bilhões de pessoas que passam fome no mundo, e a soja produzida, seja no Brasil, seja no Paraguai é em sua maioria utilizada para a alimentação de bovinos principalmente na Europa, e sabemos que a grande maioria das pessoas no mundo não comem carne, pelo preço não ser acessível. Então chegamos a conclusão que se a soja não vai para a maior parte da população e nem a carne, quem mesmo que esses fazendeiros estão alimentando? Sabemos que, por exemplo, quem alimenta nós brasileiros é quem pratica a agricultura familiar, que está sendo cada vez mais dizimada por esses latifundiários. Onde eles esperam chegar com isso? Também existe um lobby forte a favor da aprovação do novo código florestal que pode representar um retrocesso em relação a legislação ambiental vigente. Se já não bastasse a destruição a olhos vistos das matas nos estados brasuileiros, principalmente do bioma Cerrado, agora estamos exportando destruição para outros países, uma lástima.

Veja a reportagem abaixo e se revolte:

Floresta do Chaco está sob ameaça no Paraguai

Pelo menos 482 mil hectares da floresta foram desmatados nos últimos dois anos

The New York Times

 

A floresta do Chaco, um local com temperaturas que chegam a quase 48 graus, que os paraguaios chamam de seu “inferno verde”, abrange uma extensão quase do tamanho da Polônia. Caçadores ainda vivem em seus enormes labirintos de árvores.

Mas embora a floresta do Chaco tenha sempre apresentado um perigo aos humanos da região, com a presença de onças, lobos-guarás e enxames de insetos que ainda habitam as matas, a resistência da região pode finalmente estar chegando ao fim.

Grandes extensões da floresta do Chaco estão sendo devastadas em uma disputa em um dos cantos mais remotos da América do Sul por pecuaristas do Brasil, país vizinho do Paraguai, e do grupo de alemães menonitas, descendentes de colonos que chegaram no país há quase um século para trabalhar como agricultores e fazendeiros.

Tanta terra está sendo demolida e tantas árvores queimadas que o céu às vezes se transforma numa “penumbra cinzenta” em plena luz do dia, disse Lucas Bessire, um antropólogo americano que trabalha na região. “Às vezes você acorda com o gosto de cinzas e uma película branca e fina sobre a língua”, disse.

Pelo menos 482,000 hectares floresta do Chaco foram desmatados nos últimos dois anos, de acordo com análises de satélite feitas pelo Guyra, um grupo ambiental com base em Assunção, a capital do país. Os pecuaristas chegam a devastar cerca de 10% da floresta do Chaco para dar espaço para seus rebanhos de gados nos últimos cinco anos, de acordo com o Guyra. Isso é reflexo do aumento das exportações de carne bovina.

“O Paraguai já tem a triste fama de ser um campeão em desmatamento”, disse José Luis Casaccia, um promotor e ex-ministro do Meio Ambiente, referindo-se às grandes devastações de Mata Atlântica que aconteceram nas últimas décadas no leste do Paraguai para dar espaço à fazendas de soja, pouco mais de 10% das florestas originais permanecem.

“Se continuarmos com esta loucura”, disse Casaccia, “quase todas as florestas do Chaco poderão ser destruídas nos próximos 30 anos.”

A popularidade do desmatamento já está transformando os pequenos assentamentos menonitas na fronteira do Chaco em cidades movimentadas. Os menonitas, cuja fé protestante anabatista foi formada na Europa no século 16, estabeleceram assentamentos nesta região na década de 1920. Cidades com nomes como Neuland, Friedensfeld e Neu-Halbstadt fazem parte do mapa do Paraguai.

Estimulados por sua recente prosperidade, as comunidades menonitas da região diferem daquelas de outras áreas da América Latina, como os assentamentos no leste da Bolívia, onde muitos dos menonitas ainda dirigem charretes puxadas por cavalos e usam roupas tradicionais.

Em Filadélfia, adolescentes menonitas dirigem pelas estradas em picapes Nissan. Bancos anunciam empréstimos para os comerciantes de gado. Postos de gasolina vendem tabaco de mascar e cervejas de marcas como Coors Light. Um rodeio anual atrai turistas vindos de todo o país.

Patrick Friesen, gerente de comunicações para uma cooperativa menonita em Filadelfia, disse que os preços dos imóveis subiram cinco vezes nos últimos anos. “Um lote de terreno na cidade custa mais do que um no centro de Assunção”, disse Friesen, atribuindo o crescimento da região em parte à crescente demanda mundial por carne bovina.

A floresta do Chaco paraguaio está localizada na região do Grande Chaco, que se espalha por vários países. Os cientistas temem que a expansão da pecuária no Chaco Central do Paraguai poderia acabar com uma região propícia para a descoberta de novas espécies. A floresta do Chaco ainda é relativamente inexplorada. As maiores espécies de queixadas, mamíferos parecidos com porcos, foi descoberta no Chaco apenas na década de 1970. Em partes da floresta, os biólogos recentemente avistaram guanacos, uma espécie da família dos camelos semelhante à lhama.

Ainda mais alarmante, é que a disputa pela terra também esteja intensificando a revolta entre os povos indígenas, a sua subjugação aos menonitas e lutas entre diferentes tribos.

“Eles estão destruindo nossas florestas e gerando muitos problemas para nós”, afirmou Esoi Chiquenoi, um indígena Totobiegosode de cerca de 40 anos idade. Como resultado, ele e outros de sua tribo, que foram vistos em fotografias tiradas em 2004 usando tangas, abruptamente tiveram que abandonar seu estilo de vida.

Embora as comunidades menonitas estejam sendo culpadas pelo desmatamento, elas reconhecem que grandes faixas da floresta ao seu redor estão sendo devastadas. Mas negam que sejam os culpados, alegando que respeitam a lei paraguaia, que exige que os proprietários mantenham um quarto de suas propriedades no Chaco florestadas.

“O que os brasileiros estão fazendo, comprando terras com seu dinheiro, é outra coisa”, disse Franklin Klassen, um membro do conselho da cidade de Loma Plata, uma cidade menonita.

Em todo o Paraguai, o poder econômico do Brasil é visível, simbolizado nos cerca de 300.000 Brasiguayos, como são conhecidos os imigrantes brasileiros relativamente prósperos e seus descendentes, que têm desempenhado um papel importante na expansão da agricultura industrial e pecuária no Paraguai.

Tranquilo Favero, um agricultor de soja brasileiro e fazendeiro, que é um dos homens mais ricos do Paraguai, enfureceu muitos paraguaios quando disse em uma declaração publicada em fevereiro que os camponeses sem-terra tinham que ser tratados como “mulher de malandro, que só responde à violência.”

Casaccia, o promotor disse que Favero controla cerca de 248.000 hectares de terras no Chaco, além de grandes extensões no leste do Paraguai. Nem Favero e nem os diretores de sua empresa em Assunção responderam a pedidos para comentar este artigo.

Nelson Cintra, um fazendeiro do Estado brasileiro do Mato Grosso do Sul, disse que ele e seu irmão estavam entre os primeiros brasileiros a investirem no Chaco, ao comprarem cerca de 34.000 hectares na região do Alto Paraguai, perto da fronteira brasileira, em 1997.

“Os ambientalistas se queixam de desmatamento, mas o mundo tem bilhões de bocas para alimentar”, disse Cintra, que também é prefeito de Porto Murtinho, uma cidade na fronteira brasileira. “Hoje existem 1 milhão de cabeças de gado no Alto Paraguai, aonde 15 anos atrás, haviam apenas 50.000”, disse.

Na periferia de Filadélfia, a transformação do Chaco em um vasto bastião pecuária já parece irreversível. Cerca de 80 índios da tribo Ayoreo vivem na miséria em uma região ao lado da estrada, dormindo cobertos por sacos plásticos embaixo de árvores.

“Nós nunca vamos viver na floresta novamente”, disse Arturo Chiquenoi, 28, um homem Ayoreo que trabalha ocasionalmente em um rancho. “Esse estilo de vida já não existe mais.”

Por Simon Romero

 

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