Belo Horizonte não está se preparando para prevenir enchentes

Foto: Carolina Silveira
Foto: Carolina Silveira

Marcus Vinícius Polignano
Coordenador do projeto Manuelzão
Publicado em 08/10/2009

Estamos assistindo, neste mês, ao mesmo que ocorreu no final de 2008: enchentes em vários pontos de Belo Horizonte, em especial na região do Ribeirão Arrudas. As enchentes fazem parte do ciclo das águas e rios. As tragédias, não necessariamente.

Se olharmos em direção a Serra do Curral, podemos perceber claramente que Belo Horizonte foi assentada num fundo de vale, incrustada num relevo montanhoso. Pela própria conformação geográfica, a tendência natural é de escoamento das águas para os fundos de vales, como os córregos que fluem para o Ribeirão Arrudas.

Ocorre que, ao longo de sua história, Belo Horizonte, ao invés de inserir os cursos d´água no seu cenário, procurou fazer um traçado perpendicular aos mesmos e adotou sistematicamente a prática da canalização.

Ao mesmo tempo, outros processos contribuíram para agravar as conseqüências das enchentes na cidade. Erosão, ocupação desordenada do solo de fundo dos vales, manejo inadequado do solo e de microbacias hidrográficas, desmatamento. E também impermeabilização, ocupação inadequada das encostas, baixa capacidade de infiltração das águas pluviais, canais assoreados devido à grande quantidade de sedimentos e de lixo doméstico.

As causas são sistêmicas e têm haver com o território de bacia hidrográfica. As enchentes que ocorrem em pontos do Ribeirão Arrudas estão relacionadas com o que ocorre nas suas cabeceiras, nos córregos que são seus afluentes. Com a ocupação desordenada e ausência de solo permeável, que funciona como uma esponja que segura a água, o volume de água que volta para o rio aumenta muito, e o risco de acontecer uma enchente “desastrosa” é muito grande.

A manutenção do modelo de canalização de córregos agrava o problema. Nós transformamos córregos e rios em avenidas e depois nos espantamos quando as avenidas e ruas se transformam em córregos. Belo Horizonte não vem tratando sistemicamente o problema. A construção de piscinões ou aprofundamento do leito do rio são medidas paliativas, que tiram o foco da discussão das verdadeiras causas do problema. É preciso acabar com a indústria das enchentes que propõe investimentos e obras faraônicas que não resolvem os problemas. A história da cidade demonstra isso. Quando aumentaram a caixa de concreto do Ribeirão Arrudas na década de 1980, afirmaram que não teríamos mais enchentes.

É necessário que o modelo de gestão das águas de Belo Horizonte seja revisto: proibindo-se novas canalizações; fazendo “descanalizações” para que os cursos d´água possam correr livres no seu leito natural, como já ocorre em países da Europa; aumentar a permeabilidade do solo; rever a lei de uso e ocupação do solo para garantir a preservação das cabeceiras dos cursos do d´água; aumentar as áreas verdes em pontos estratégicos na cidade; “descimentar” fundos de quintais de áreas públicas, dentre outras. Não podemos dominar a natureza, mas podemos aprender como conviver com ela e evitar os danos e tragédias.

Anúncios

2 comentários em “Belo Horizonte não está se preparando para prevenir enchentes

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s