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Diga não a canalização IV – Córregos de Ourinhos – SP

Diga não a insanidade humana! Canalização é loucura, merece internação para quem realiza uma depredação dessa contra a natureza. A leitora do blog, Viviane Silvestre, deixou um comentário  com seu relato sobre o que a prefeitura de Ourinhos – SP está fazendo para com os córregos daquela cidade. Estou postando abaixo um vídeo super bem feito e explicativo de como agem esses vândalos que se escondem sob a imagem de autoridades. Obrigado pelo link do vídeo no comentário Viviane, saiba que você não está sozinha nessa luta e que um dia seremos ouvidos! Vale a pena assistir o vídeo até o fim. E lembrem-se: evite impermeabilizar totalmente sua calçada e seu quintal, a natureza agradece!

Entre Rios, um brilhante trabalho!

Resumo:  Entre Rios conta de modo rápido a história de São Paulo e como essa está totalmente ligada com seus rios. Muitas vezes no dia-a-dia frenético de quem vive São Paulo eles passam desapercebidos e só se mostram quando chove e a cidade para. Mas não sinta vergonha se você não sabe onde encontram esses rios! Não é sua culpa! Alguns foram escondidos de nossa vista e outros vemos só de passagem, mas quando o transito pára nas marginais podemos apreciar seu fedor. É triste mas a cidade está viva e ainda pode mudar!

Meu comentário: Adorei esse curta. Essa é uma realidade presente na maioria das capitais brasilerias, geralmente é mais fácil esconder o problema do que tratá-lo.  Nesse caso, tenta se resolver também o problema do trânsito, pois, nas grandes cidades o trânsito é prioritário. A questão é que os noticiários, na época das chuvas, nos mostram o caos gerado com as inundações, pois a impermeabilização e o confinamento do córrego a uma camisa de força(canalização), o torna violento no período das chuvas, gerando transtornos imensos à população.

 

De nada adianta brigar, o trânsito sempre fala mais alto

Foto: Rodrigo Soldon

Primeiro foram os pioneiros dessa cidade, trataram logo de passar o facão, trator, carro de boi, o que for, por cima das áreas de várzea e matas ciliares dos córregos da capital, a marcha para o oeste, a construção de Brasilia, trouxeram mais e mais pessoas para a capital do estado. Pedro Ludovico havia projetado uma cidade para não mais do que 50 mil habitantes, hoje Goiânia e região metropolitana possuem mais de 1 milhão e 400 mil pessoas, e esse número não para de crescer, e cresce exponencialmente. Toda essa quantidade de pessoas tem criado uma absurda pressão principalmente sobre os recursos naturais da cidade, de recursos digo principalmente os córregos e rios.

No passado, com ausência de fiscalização, as invasões sobre as margens dos córregos, inclusive de pessoas endinheiradas, provocou a privatização de diversas áreas na beira de córregos e rios, que segundo o código florestal deveriam estar protegidas, mas só no papel estão, por que o que se vê atualmente na cidade é um verdadeiro festival de privatização de áreas públicas justamente em lugares onde não deveria existir uma única construção.  A destruição das matas ciliares corresponde  apenas a ponta do iceberg de um problema muito maior, imenso. A medida que os bairros avançam, a infraestrutura básica é instalada: água, energia, asfalto, galeria de água pluvial, as vezes rede de esgoto. Vamos então nos concentrar no asfalto e na galeria pluvial.

Asfalto pode representar alivio, fim da grande quantidade de poeira, casa limpa, bem arrumada, mas por outro lado também representa impermeabilização, mais calor e mais N valores agregados que cito entre eles o sujeito que vendo-se livre da terrona nas ruas trata de cimentar todo seu quintal, pra manter segundo ele, tudo mais limpo, em resumo, mais asfalto, mais cimento em casa, mais água nas ruas quando vem a chuva. Resultado disso? Inundação, mas pra onde vai toda essa água quando ela passa pela rua? Exatamente, para os córregos e rios. Mas perai, será que eles estão preparados para receber tamanha quantidade de água? Temos ai mais um problema, muitas vezes a cidade não dispõe de rios ou córregos preparados para receber tamanho volume de água, a partir do momento que as galerias são direcionadas até eles, estes passam a adaptar um novo leito, o resto de mata ciliar que ainda existia é consumido, tragado pra dentro do rio, e o que dizer das construções que ficam a beira? Pobres, ricos, sem distinção que fizeram suas casa justamente onde não deveriam, também são consumidos, a não ser claro que o poder público, além de ter permitido a usurpação desses lugares, passa a dar a devida manutenção para que tudo não desça rio abaixo. É muito comum encontrar dentro de córregos pedaços inteiros de muros, ou outros pedaços de construções que foram embora em alguma chuva mais forte, ou simplesmente pessoas que no desespero jogaram restos de construção dentro do córrego, além de não adiantar nada, compromete ainda mais o interior do mesmo, quanto mais comprometido esta o leito do córrego, mais ele avança nas laterais.

Pois bem, além das galerias pluviais servirem como verdadeiras mangueiras de altíssima pressão durante a chuva, elas também passam a servir como condutoras de sujeira em lugares não servidos de rede de esgoto. Algumas pessoas não constroem fossa séptica e então fazem ligações clandestinas nas galeria de água, o esgoto então desce redondo pra dentro do córrego. Então recapitulando, já listamos aqui os seguintes problemas: Retirada de mata ciliar, urbanização desordenada com invasão das margens dos córregos, impermeabilização do solo com consequente aumento do volume de águas que chegam ao córrego e por isso as erosões e aumento da “caixa” do manancial, além de muito lixo que chega pelas galerias, e entulho, muito entulho que as empresas não sabem pra onde levar, pois não existe área de triagem e reciclagem do entulho de construção aqui na cidade, pra se ter uma idéia a prefeitura gasta mais removendo entulhos de lotes vagos e beiras de córrego do que se tivesse a reciclagem em funcionamento, além do que os entulhos que seguem para o aterro sanitário comprometem a vida útil do mesmo.

Como consequencia da maioria das coisas descritas acima, temos o maior vilão de todos, mas infelizmente esse é vangloriado pela maior parte da população que só conhece os beneficios, desprezam os malefícios do mesmo, o nome? Canalização.

Pois bem depois de acabar completamente acabar com o córrego dentro da cidade eis que surge a canalização que promete mundos e fundos, alhos e bugalhos, retira-se os invasores das margens do córregos, faz-se a correção de seu curso, cria-se paredes de concreto super resistentes a infiltração ou erosão, concreta-se o fundo do rio para evitar infiltração por baixo, acaba-se, em muitos casos, com nascentes que abasteciam o córrego, além de aumentar a evaporação do mesmo, após tudo isso decreta-se o fim do córrego, que passa a ser chamado de canal, vão-se embora os peixe, se ainda existirem, aumenta-se a velocidade do córrego e aguarda-se até o dia do volume de água ser tão grande que o córrego sai como um míssel de sua calha destruindo tudo o que está ao redor.

Porém, existe uma vantagem nisso, constroe-se uma marginal ao lado do córrego, facilita-se o fluxo dos carros, o trânsito desafoga. Alegria para o goianiense que passa a ter mais uma via de acesso rápido e pouco se importa para o que corre no centro de tudo aquilo. Além da canalização na  maioria dos casos ser um grande problema, a solução que ela aplica é apenas paliativa visto que as montadoras de automóveis querem vender, as concessionárias querem vender, e o morador da cidade quer ter um veículo para se locomover pela cidade diante de um transporte coletivo falido, em meio a um trânsito cada dia mais caótico, resultado? Em pouco tempo a marginal que inicialmente tinha o trânsito rápido passa a também se congestionar, ou seja, obras como essas expiram, nunca se ataca o problema na raiz, a cidade gira em torno do trânsito, e coloca a qualidade de vida dos habitantes lá embaixo. Se fosse em prol da conservação de rios e córregos, com certeza se pensaria em maneiras mais viáveis de se crescer uma cidade sem destruir tanto suas belezas e riquezas naturais. E ainda falam que Goiânia é primeira e qualidade de vida, tenho medo de pensar nas outras cidades.

Goiânia, uma cidade pouco ambientalmente correta.

Situação da Margem de córrego em Goiânia

Sim, é isso mesmo, a capital do estado de Goiás está longe de ser uma cidade ambientalmente correta. Pode-se dizer que as coisas aqui melhoraram sensivelmente nos últimos anos, mas está longe, muito longe mesmo do ideal. Os parques, aparentemente, trazem uma melhora da qualidade de vida na cidade, na frente dos panos tudo está uma maravilha, e por trás como está? As coisas estão indo de mal a pior. Nosso córregos agonizam, as nascentes secam, as árvores, outrora frondosas na época de Pedro Ludovico, desapareceram. Não é necessária nem uma mão para contar nos dedos a quantidade de córregos em Goiânia que possuem sua cobertura vegetal original ou mesmo alguma cobertura vegetal que não seja capim. Triste constatar que até mesmo nascentes são aterradas, dando lugar a plantações, pastagens ou construções. Pobres córregos de Goiânia, faziam a alegria dos primeiros moradores da capital, hoje em dia são alvo do desprezo, da poluição, do abandono, da depredação.

Urbanizar tornou-se sinônimo de destruição, não é possível coexistir córrego limpo, bem cuidado com residencias, ruas, praças. Vem o asfalto trazendo com ele a impermeabilização e as galerias de água pluvial, que por sua vez trazem uma carga de água que o córrego não consegue assimilar, provocando erosão e assoreamento, somam-se a isso o lixo das ruas e por fim esgoto, ligado clandestinamente nos canos destinados unica e exclusivamente para escoamento da água da chuva. Além desses ingredientes, temos a ocupação das margens, com a retirada da cobertura original e a degradação das nascentes ao longo do córrego que com o tempo tornam-se temporárias ou simplesmente desaparecem. Os parques de certa forma protegem as nascentes de alguns córregos, o problema é que a proteção fica apenas no perímetro do parque, já fora, a realidade é outra, bem mais cruel.

Em virtude das erosões, a situação das margens da maioria dos mananciais em Goiânia esta tão critica, que é necessária uma intervenção urgente para que os córregos, na tendência natural de corrigir seus leitos, não invadam ainda mais as laterais, que hoje em dia estão ocupadas por muros e casas de pessoas que acham que o problema está no córrego e não no local que elas escolheram para construir. O problema é que sempre trazem soluções mais baratas ou simplesmente mais rápidas, como gabiões ou canalização do leito. O que descaracteriza completamente o córrego e provoca sua morte simbólica, porém tão dolorida quanto a real, tranformando-o apenas em um simples canal que leva a água que nasce de um ponto ao outro em sua foz.

Mas, de todos os problemas o maior deles esta realmente na cabeça da população, que não é educada a admirar seus rios ou córregos. A correria do dia a dia as impede de apreciá-los e com isso ninguém se importa quando joga-se lixo ou esgoto neles, retira-se a mata da margem ou se concreta seu fundo e suas laterais, muitas vezes a população até aplaude esse feito, claro que iludida pela mídia ou governo que chama o processo de reurbanização do vale do córrego X.

Goiânia é uma bela cidade, mas só por fora, por dentro ela é feia, é suja, é insalubre e doente. Goiânia, deve sim ser reconhecida pelo seu meio ambiente, mas como um todo, não só através de parque isolado, mas através da interligação das subbacias hidrográficas do município, criando nas margens dos córregos parques lineares que se estendem por toda sua extensão, trabalhando a questão do lixo, punindo severamente aqueles que fazem ligações clandestinas de esgoto e fazendo estudos para saber a capacidade máxima de água que um córrego pode suportar a cada chuva, fazer cumprir a lei para que o terreno tenha  área mínima permeável, para infiltração da água pluvial , ou pelo menos a caixa para reter água da chuva, e tudo mais que possa ser feito para que a água não fique apenas na superficie, mas vá para o solo e recarregue as nascentes. Nossos córregos precisam de ajuda, ou os protegemos ou os perderemos, enclausurando-os em canais de cimento, que mais lembram cemitérios de córregos.

P.S: Apesar de alguns esforços que tem sido feitos para corrigir esses problemas, eles não tem sido nem de longe suficientes.

E o ciclo se repete, até quando? Ou é para sempre?

Foto: Marian Primi Haas

A INVASÃO DAS VÁRZEAS DOS RIOS E SUAS CONSEQUÊNCIAS

A várzea pertence ao rio

Publicado por http://www.aguaonline.com.br/

Poucas vezes tem-se visto na grande imprensa uma matéria tão oportuna e analítica como a publicada no jornal o Estado de São Paulo e elaborada pelo jornalista Ivan Marsiglia.

Bem a propósito da comemoração, em 02 de fevereiro, do Dia Mundial das Áreas Úmidas. Fugindo da clássica abordagem da culpa da chuva e do rio que invade casas a matéria mergulha nos meandros do processo de urbanização da cidade de São Paulo e que se reproduziu às centenas pelo Brasil afora. E que continua a servir de espelho (errado) a outras centenas de municípios pequenos que um dia sonham em se tornar grandes.

Ela vai aqui reproduzida como uma homenagem à lucidez e clareza da entrevistada e argúcia do repórter que soube trazer à tona as causas subjacentes para o caos urbano que vem se instalando nas cidades brasileiras nestes tempos de mudançcas climáticas.

“Pé d’água, mesmo, não foi. Mas uma chuva compacta e homogênea, a mais volumosa em dois anos, caindo sobre quase toda a cidade de São Paulo durante 24 horas. E a maior metrópole brasileira amanheceu parada e submersa. Foram registrados 105 pontos de alagamento, entre eles as marginais dos Rios Pinheiros e Tietê. E seis pessoas morreram em deslizamentos de terra – no caso mais grave, em Santana de Parnaíba, quatro irmãos de uma mesma família, três deles, crianças.

A tragédia deixou “constrangida e indignada, mas não surpresa” a geógrafa paulistana Odette Carvalho de Lima Seabra. Autora de Os Meandros dos Rios nos Meandros do Poder: O Processo de Valorização dos Rios e das Várzeas do Tietê e do Pinheiros, apresentado como tese de doutorado na USP em 1987, a professora considera corretas as medidas tomadas nos últimos anos para mitigar as enchentes. Mas o sistema já está próximo de seu limite. Odette diz que as políticas públicas destinadas às várzeas dos Rios Pinheiros e Tietê tiveram um protagonista privado: a São Paulo Tramway, Light and Power Company – empresa de capital canadense que energizou o processo de urbanização brasileiro nas décadas de 30, 40 e 50. Afirma que as várzeas onde o governo do Estado assenta obras de ampliação das marginais são parte integrante dos rios – que as requisitam de volta, nas enchentes. E aponta que a solução definitiva passa por mudanças profundas no modo de vida na cidade.

As cenas de inundação na terça-feira surpreenderam a senhora?

Fiquei, como todo o mundo, constrangida e indignada. É insuportável saber que somos obrigados a viver essas tragédias ano após ano. Mas não posso dizer que as imagens me surpreenderam. As medidas que vêm sendo tomadas desde 1999 são corretas. Mas ocorre que a capacidade do Tietê está no limite. A interligação de bacias necessária ao abastecimento de São Paulo faz com que, por exemplo, 33 metros cúbicos por segundo da bacia hidrográfica do Rio Piracicaba caiam aqui.

O solo impermeável da cidade é uma das causas das enchentes?

Também. As chuvas, a cada ano, são mais torrenciais. Há dados mostrando isso. Temos um volume aumentado de água na rede, impermeabilização crescente do solo e ocupação desordenada do rebordo externo da bacia. Eu me refiro à zona leste de São Paulo, à vertente sul da Cantareira, essa porção de colinas, onde têm ocorrido desastres. O solo, lá, é de rigolito, fixo apenas pela vegetação. Com o desmatamento, ainda que seja uma simples abertura entre as casas, tudo fica sujeito a deslizamentos. Além disso, por gravidade, os detritos chegam à calha do rio. Por isso o Tietê tem um trabalho de desassoreamento que não pode parar.

É difícil imaginar Paris sem o Sena, Londres sem o Tâmisa, Viena sem o Danúbio. Que falta faz um rio a uma grande cidade?

O rio é uma referência de lugar e de espaço, integra a identidade de um povo. Quando ele está perdido, como no nosso caso, é uma ausência importante. Vi um documentário que mostrava como os brasileiros voltaram as costas para os rios. Há quem cruze o Tietê quatro vezes ao dia sem se dar conta.

Seu doutorado mostra como as estratégias de ocupação das margens do Tietê e do Pinheiros foram definidas a partir dos interesses da Light. Como isso se deu?

Esse é o rescaldo negativo do imperialismo das grandes empresas nos países subdesenvolvidos. A Light, da qual hoje pouco se fala, provocou uma grande mobilização no Brasil das décadas de 30, 40 e 50. A companhia era uma espécie de polvo, atuando em diferentes esferas. Foi tão importante na história de São Paulo que passou a integrar o imaginário. Aparecia na música, na poesia, na retórica popular. Havia até uma expressão: “E eu com a Light?”

A proximidade das pistas do leito dos rios nas marginais é muito criticada por urbanistas. Por que elas foram parar lá?

Nos anos 60, com o Plano de Metas, foi preciso abrir espaço para circularem os automóveis. Tem início outro padrão e modo de vida. O Estado planejou as marginais e pressionou a Light: “Agora, vamos intervir, porque é preciso modernizar a estrutura de transporte do País”. Veja que, até então, em São Paulo andava-se de carroça, bonde ou barco – cerca de 500 deles transitavam no Tietê. Com a entrada da indústria automobilística, o transporte por rio desaparece e o ferroviário entra em declínio. Os bondes saíram de circulação não porque as pessoas não mais os quisessem, mas porque outra opção de transporte foi imposta goela abaixo.

É por isso que senhora diz que “os enigmas do funcionamento da Bacia do Alto Tietê traduzem o modus operandi da modernização geral da sociedade”?

Se a gente tem noção da história, fica ingênuo discutir quem fez as marginais e foi responsável por esses equívocos. Mas, com o partido rodoviário sendo adotado como modalidade de transporte nacional, a sequência só poderia ter sido essa. No caso da Light, é preciso levar em conta também que éramos uma República nova, sem conhecimento de estruturas jurídicas, com uma sociedade pouco aparelhada para negociar com o trust. Não que, por princípio, as pessoas fossem boas ou más. É um processo.

Os moradores mais antigos da cidade têm a memória de um Tietê onde se nadava, praticava remo. Como se transformou em uma “cloaca a céu aberto”, como a senhora diz?

Em minha tese, entrevistei um ex-barqueiro, de 96 anos, que passou a vida recolhendo areia do fundo do Tietê para vender. Ele me contou que, em 1935, já não podia mais beber a água do rio, e a levava de casa. Perguntei por quê. “Desde que a Nitroquímica se estabeleceu em São Miguel os peixes começaram a morrer e a gente não podia mais beber a água.” Ainda na década de 20, quando a Light obteve o monopólio do Rio Pinheiros, as autoridades decidiram deslocar os barqueiros para o Tietê. Houve processos na Justiça e, num deles, um barqueiro questiona: “Já não dá para tirar areia entre a Ponte Pequena e a foz do Rio Pinheiros, porque o fundo do rio é lodo e esgoto”. A contaminação é um processo que vem com a urbanização. Seus efeitos deveriam ter sido domesticados ao longo do tempo, mas ela foi avassaladora e não pudemos raciocinar sobre os problemas que a industrialização trazia.

Dezenas de projetos de ampliação do leito e embelezamento das margens foram realizados em São Paulo, sem que os rios fossem de fato recuperados – como ocorreu com o Tâmisa, em Londres. Por quê?

Primeiro, a gente continua poluindo o Tietê. A poluição industrial foi controlada, mas a doméstica, não. Há um problema de infraestrutura difícil de enfrentar. É muito caro fazer interligação de esgotos. Às vezes, os espíritos românticos maquiam as margens, produzem discursos… Mas a solução ainda está distante.

Ambientalistas dizem que “o carro é o novo cigarro”, um símbolo anacrônico de status, a ser banido.

Seria bom mesmo. Mas como agir numa sociedade desse tamanho, com milhões de pessoas circulando para cima e para baixo? Uma pesquisa que fizemos em Parelheiros, no extremo sul da cidade, mostrou que existe gente nascida lá, que já é adulta e nunca saiu da região. Não conhece nem o centro. Chamo isso de confinamento dos pobres. Com tantas carências, como arcar com o custo social de liberar as várzeas?

Fonte: Aguonline – jornalista Cecy Oliveira/Site Tratamento de Água

Publicado também no Blog do SOS Rios do Brasil

Errar é humano, permanecer no erro é burrice…

Rotina desastrosa

“Se houvesse prevenção, a espacialização da população não geraria desastres. Se há fatores que caracterizam ameaça, é preciso preparar a população. E, após o resgate, é preciso buscar maneiras de reabilitar a população imediatamente e fazer uma reconstrução resiliente”, disse.



Por Fábio de Castro

Agência FAPESP – A cada ano, em períodos de chuvas mais intensas, repetem-se pelo Brasil as cenas de tragédias provocadas por enchentes e deslizamentos de terra. Esses desastres periódicos são, muitas vezes, indevidamente atribuídos apenas à intensidade dos fenômenos naturais. No entanto, na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), um grupo de especialistas no tema adota uma perspectiva mais crítica: os desastres são recorrentes no país por falta de uma cultura de prevenção e proteção civil.

Essa é uma das principais conclusões do livro Sociologia dos Desastres: construção, interfaces e perspectivas no Brasil, lançado pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas Sociais em Desastres (Neped), do Departamento de Sociologia da UFSCar. A obra é fruto dos estudos realizados no núcleo desde 2003 e reúne artigos de 12 especialistas diferentes.

Organizado pela coordenadora do Neped, Norma Valêncio, e pelos pesquisadores Mariana Siena, Victor Marchezini e Juliano Costa Gonçalves, o livro tem o objetivo de contribuir para o aperfeiçoamento do Sistema Nacional de Defesa Civil.

De acordo com Mariana, o foco do grupo é a relação entre desastres, direitos humanos, defesa civil e dimensões políticas e institucionais. “Estudamos também as dimensões psicossociais dessa associação. Para isso, trabalhamos com entrevistas in loco, por exemplo, com moradores que perdem suas casas em desastres”, disse Mariana à Agência FAPESP.

Sob a orientação de Norma, a pesquisadora desenvolve atualmente, com auxílio da FAPESP, um estudo de doutorado com o tema “Vulnerabilidade diante dos eventos extremos relacionados às mudanças climáticas: uma análise sociológica do discurso e prática da assistência social em cenário de desastre associado às chuvas”.

Segundo Mariana, praticamente todos os estudos realizados pelo Neped convergem para a constatação de que não há, no Brasil, uma cultura relacionada à prevenção e à proteção civil em relação a desastres. De acordo com a pesquisadora, o caso dos desastres ocorridos recentemente em Angra dos Reis (RJ) é um exemplo atual de uma constatação feita pelos especialistas no livro: os órgãos públicos têm dificuldades para reagir aos desastres.

“Se houvesse prevenção, a espacialização da população não geraria desastres. Se há fatores que caracterizam ameaça, é preciso preparar a população. E, após o resgate, é preciso buscar maneiras de reabilitar a população imediatamente e fazer uma reconstrução resiliente”, disse.

A ineficiência do sistema de defesa civil, segundo Mariana, não se resume à incapacidade de resposta imediata. Ela é percebida especialmente no trabalho de prevenção quase inexistente. “A falta de prevenção é generalizada e o ente público está sistematicamente ausente. As lições aprendidas com as falhas na prevenção quase nunca são incorporadas”, afirmou Mariana.

Sempre os mesmos

Cerca de 25% dos municípios brasileiros são afetados por desastres relacionados a chuvas e seca a cada ano, de acordo com dados levantados pela equipe do Neped. Segundo Mariana, os estudos feitos pelo grupo mostram que, nos últimos sete anos, a existência de desastres é verificada nos mesmos estados e municípios.

“Entre 2003 e 2007, observamos em estudos de caso que os mesmos locais e as mesmas famílias haviam sido atingidas diversas vezes. Tudo se repete periodicamente, com as mesmas características e os mesmos prejuízos. E eventualmente em situação pior, já que pessoas que mal tiveram tempo para se recuperar são atingidas novamente”, afirmou.

De acordo com Mariana, há uma estreita relação entre desigualdade social e exposição ao risco. “Os fenômenos naturais, ainda que extremos, não são desastres. Entendemos por desastre uma combinação da ameaça natural com a alta vulnerabilidade. É o que temos visto no caso dos terremotos no Haiti. O país tem grande vulnerabilidade econômica, social e institucional dos mais diversos matizes. Quando ocorre um terremoto, nesse caso temos de fato um desastre”, explicou.

Os estudos constataram, segundo Mariana, que o processo de vulnerabilidade está relacionado à indiferença social em relação ao direito de territorialização das populações empobrecidas. “É essa indiferença e o descomprometimento dos órgãos de defesa civil que tornam essas pessoas vítimas fáceis dos impactos dos desastres naturais”, disse.

Embora a vulnerabilidade tenha um componente inequívoco ligado à pobreza, a parte mais rica da população também é afetada por desastres, de acordo com Mariana. “Todos são atingidos. Mas quem tem mais poder aquisitivo dispõe também de mais facilidade para suplantar essas adversidades, reconstruir o que foi destruído e garantir a prevenção para que o desastre não se repita”, afirmou.

Os pesquisadores do Neped, segundo Mariana, realizaram nos últimos anos estudos dedicados aos diferentes grupos sociais que apresentam vulnerabilidade aos desastres. “Esses grupos são submetidos a um expressivo sofrimento social em situações de desastre. Na maioria dos casos, essas vulnerabilidades se combinam com políticas sociais precárias. Estudamos como os desastres afetam as populações de baixa renda, mulheres, idosos e crianças, por exemplo”, declarou.

Atualmente, o grupo se dedica a estudar também a vulnerabilidade a eventos extremos associados às mudanças climáticas globais. “O nosso núcleo tem hoje 18 profissionais de diversas áreas, sendo que a maior parte vem da sociologia”, disse a pesquisadora.

O livro, segundo a pesquisadora, está dividido em quatro seções. A primeira trata de políticas institucionais da defesa civil, a segunda aborda as dimensões sociais da vulnerabilidade e a terceira discute o tema “Educação para redução de desastres”.

A última seção é a única que trata de estudos feitos fora do Brasil, abordando as pesquisas feitas por Norma Valêncio na África, nas quais avaliou os impactos das mudanças climáticas sobre países do continente. “Essa seção faz uma reflexão sobre a contribuição das ciências humanas para pensar o sofrimento social no continente africano”, disse Mariana.

*
Sociologia dos Desastres: construção, interfaces e perspectivas no Brasil
Autor: Norma Valêncio e outros
Lançamento: 2010
Preço: Distribuição gratuita
Páginas: 268
Mais informações:

Mais informações: desastres@terra.com.br

Do blog do Instituto SOS Rios do Brasil

Modelo antiquado de drenagem das águas provoca enchentes em São Paulo, diz especialista da USP

Foto: Milton Jung CBNSP

As enchentes na cidade de São Paulo, ocorridas nos meses de maior quantidade de chuvas, são resultado de um modelo antiquado de drenagem das águas, de urbanização e de ocupação inadequadas das várzeas dos rios. A opinião é de dois especialistas ouvidos pela Agência Brasil.

Segundo o arquiteto e professor da Universidade de São Paulo (USP), Paulo Pellegrino, a cidade está insistindo na utilização de um modelo de concentração e transferência de águas muito concentrador e acelerador, o que impossibilita a infiltração no solo. “Você cria uma situação de concentrar o fluxo das águas das chuvas e quer conduzir toda essa água por superfícies impermeáveis até um ponto final. Quando chega lá embaixo, é um dilúvio. Esse é o modelo antigo, que você tinha no século passado”, afirmou.

De acordo com Pelllegrino, outras cidades do mundo já estão agindo no sentido de trazer os córregos para o seu leito original e refazer as áreas naturais ou verdes a fim de facilitar o escoamento e a absorção da água pelo solo. “Juntamente com o propósito de você ir reduzindo a quantidade de água que corre rapidamente para o fundo do vale”, analisou.

O arquiteto e urbanista do Instituto Polis, Kazuo Nakano, explica que o problema está centrado no modelo de urbanização e ocupação inadequados das várzeas dos rios. “O Tietê, o Pinheiros e o Tamanduatei eram rios de meandro (com curvas acentuadas). A gente pegou um rio que era todo curvilíneo, canalizou em uma linha reta. Transformou um rio de meandro em um canal, e urbanizou as margens desse rio”, disse.

Com o modelo aplicado, as águas das chuvas passam a escoar pelos rios com maior velocidade, o que não possibilita a absorção pelo solo. “A gente acelerou a velocidade dessas águas. Quando chove, a água escorre muito rápido por esses canais e, como está tudo impermeabilizado, a terra não absorve. E aí inunda”, afirmou.

A solução apontada pelo urbanista é corrigir gradativamente a ocupação das proximidades dos rios e liberar espaço para o solo absorver as águas. “A gente vai ter que ir reformulando o jeito de ocupar as margens desses rios e córregos, lugar por lugar, onde der para implantar um parque linear, onde der para a gente liberar o solo para fazer ele respirar, para fazer ele entrar no círculo das águas das chuvas. Essa vai ser a nossa única solução no longo prazo”.

De acordo com o Centro de Gerenciamento de Emergências de SP (CGE), na terça-feira (8), choveu 75,8 milímetros (mm) em média na cidade, o equivalente a 37,7% da média prevista para dezembro, que é de 201,0mm. Decorridos apenas oito dias do início do mês, São Paulo já registrava um acumulado médio de 143,1mm, que reflete em 71,2% da média para o mês.

Desde a fundação do CGE, em 1999, o maior volume de chuvas foi registrado em 24 de maio de 2005, com 76,2mm. O índice desta terça-feira (8) passa a ser o segundo maior nos últimos 10 anos.

O governador do estado, José Serra, reafirmou nesta quarta-feira (9) que houve falhas no sistema de drenagem da Usina de Traição, que regula a vazão das águas do Rio Pinheiros. “O equipamento não funcionou quando foi acionado. Mas mesmo que tivesse, sem dúvida haveria enchentes por causa do grande volume das chuvas”. (Fonte: Agência Brasil)

Dica do Blog do Instituto SOS Rios do Brasil

Piada de Última Hora

“Prefeitura de São Paulo estuda a entrada em operação de bombas adicionais para escoar água do rio Tietê”

Tá duvidando, clique aqui.

Não entende o porquê da piada? Quem conhece do assunto entende e sabe que nunca as margens de um rio como o Tietê poderiam ter sido ocupadas da forma como foram, e que bilhões são gastos em medidas para contenção de inundações, e que a grande maioria dos córregos e riachos de São Paulo se encontram canalizados, entubados e que mais 80% dessa cidade  se encontra impermeabilizada, ou seja, a água da chuva não tem pra onde ir senão para dentro do Tietê.

Chove chuva, chove sem parar…

Uma canção em homenagem a nós humanos, que fazemos obras que nos fragilizam mais ainda a cada vez que chove.

Mundo paralelo – O médico e o rio

Deixamos o córrego doente

O rio procura um médico para que este lhe dê o diagnóstico de sua doença. Como de praxe, o rio descreve os sintomas de seus problemas.

Rio - Bom dia sr. doutor, a vida tem sido difícil pra mim, tenho tido crises terríveis de inundação, mal cheiro e depressão.

Médico – bom dia sr. Rio, nossa! Que lástima você se encontra, de longe eu já percebi que a coisa não estava muito boa para o seu lado.

Rio – Então é grave doutor?

Médico – Pelo visto, muito, muito grave, sua aparência não é nada boa, você está cinza! E aqui nesse ponto a coisa está ainda pior, a doença já concretou seu fundo e suas margens.

Rio – Pois é doutor, vieram umas pessoas ai, dizendo que isso era para meu bem, que eu me sentiria melhor com todo esse concreto ao meu redor, mas não vi melhoras, continuo com muita sujeira, muito lixo e muito esgoto, já me sinto inútil, inválido, maltratado. Em épocas de chuvas sintos dores terríveis, em alguns pontos me autoflagelo, arrasando minhas margens, derrubo minhas companheiras árvores, trago toda sorte de coisas para meu fundo, chamo de minhas crises, não tenho mais prazer quando chove, isso que corre por mim não é nem água mais.

Médico – Essa doença é gravíssima, mas é muito mais comum do que imaginamos, as causas são bem claras, vou descrevendo aqui e você depois me diga se todas conferem: urbanização descontrolada, ocupação desordenada das margens, remoção de mata ciliar, lançamentos de esgotos, lançamento de grande volume de águas pluviais, impermeabilização, erosão, assoreamento, lixo.

Rio – Exato, tudo isso e até um pouco mais, estou mal, não me aguento, meu cheiro é terrível.

Médico – E faz quanto tempo que você começou a sentir que estava doente?

Rio – Há exatos 10 anos, no início os sintomas eram mais brandos, mas a medida que a tal da cidade foi crescendo a doença foi piorando, tornou-se aguda, tenho medo de que se torne incurável.

Médico – Se lhe canalizarem todo, e ainda lhe entubarem, fazendo com que você deixe de existir para as pessoas e animais, presumo que a doença se torne de difícil tratamento, se a cabeça das mesmas pessoas que lhe trouxeram esse mal não mudar, possivelmente esse mal se tornará incurável  enquanto existirem seres da espécie humana ao seu redor.

Rio – Queria apenas voltar a viver como antes, do jeito que estou, doente, também trago doenças para todos, contamino tudo ao meu redor, além do mais estou provocando muitos estragos mais pra frente. Eu não queria causar mal a ninguém, mas como não fazer mal se vocês parecem clamar por isso? Todos esses problemas foram e são causados exclusivamente por vocês, não é minha amiga terra, nem a água, nem a chuva. são vocês.

Médico – Infelizmente eu concordo com o que diz, também sou humano e me sinto culpado por isso que passa, a doença, a angústia, a vergonha. Sinto-me triste, impotente diante dos fatos, mas estou aqui agora, quero te ajudar, eu não tinha a menor vontade de olhar pra você, era uma coisa meio inconsciente, peço também que as pessoas parem uma vez ou outra para lhe contemplar,vejo que se cada um fizer sua parte como cidadão, além de cobrar das autoridades a solução disso daqui vai ser bom para você, e bom para todos. Se hoje elas veêm sujeira, se hoje te escondem é por culpa de todos nós, se isso aqui estiver limpo, poderemos ter lazer, melhorar nossa qualidade de vida e ainda acabar com a doença que lhe acomete.

Rio – Eu adorava as crianças brincando em minhas límpidas águas quando isso daqui ao redor era verde e desabitado, as pessoas passavam os fins de semana aqui, se divertiam, hoje torcem o nariz para mim.

Médico – Esse cheiro ruim é causado por excesso de matéria orgânica, então seus amigos começam a lhe limpar, esses amigos cresceram descontroladamente para comer a matéria e transformá-la em outras substâncias que irão alimentar outros organismos quando você estiver com as suas águas com mais oxigênio, é parte de uma cadeia alimentar. Se mais pra frente não existirem mais lançamentos de esgoto você passa a se sentir melhor, os sintomas ficam menos graves.

Rio – Queria ser maior, quem sabe assim eu teria tempo de começar a me sentir melhor. Mas por enquanto não tem como.

Médico – Por isso lhe digo que nessa conversa isolamos o agente causador, não precisamos de microscópio, nem de exames detalhados, nem de equipamentos caros, os patógenos são os próprios humanos, nós somos a doença, mas também o próprio remédio, se quisermos vivermos em harmonia, podemos e devemos lhe curar.

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