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Arquivo para a categoria ‘Crônicas’

Se somos observados, será o que pensam de nós?

Um viajante das estrelas, acostumado com suas visitas interplanetárias, decide conhecer um pouco mais a fundo nosso planeta.Logo que chega descobre algo estranho, como pode um planeta, na sua maior parte coberto por água, se chamar Terra, indaga ele. Se infiltrando em meio a nossa sociedade ele descobre coisas surpreendentes e ao mesmo tempo apavorantes. Ele percebe que nós, os humanos, damos pouca importância aquilo que nos traz a vida, e muita importância aquilo que nos tira a vida. Ele descobre que damos um valor enorme a um tipo de papel com desenhos o qual chamamos de dinheiro. Que tudo em nossa vida gira em torno desse papel, que na sociedade humana, vale mais quem tem mais dinheiro. Ele descobriu uma interessante expressão a esse respeito: você vale o que você tem.

Um fato que chamou sua atenção é que muitos de nós adoramos um Deus cujo filho se chama Jesus, mas que mesmo esse Deus fica em segundo plano pois, muitos o procuram apenas para pedir melhoras financeiras, ou seja, mais dinheiro.

O que mantém a vida no planeta, a natureza, é apenas uma personagem sem importância, que cumpre seu papel de servir e apenas colhe o descarte da escória humana.

O viajante então chega a uma conclusão de que se não cuidamos da nossa própria casa e não respeitamos nossos semelhantes, somos seres hostis e perigosos. Ele decide então ir embora, certo de que, pela sua experiência, aquele povo estava fadado a extinção.

Morte na estrada

Foto: LFGonçalves

Morte na estrada

Por instinto ele atravessa o caminho, uma luz forte paralisa o pobre animal. O som macabro entoa no ar, restam-se os restos espalhados no chão cinzento.

É o fim dos animais que atravessam o caminho que era deles. O homem criou a estrada,  inventou a roda,  fez o carro e nasceu o motorista.

Ao passarmos pelas estradas brasileiras, somos surpreendidos em todo momento com cadáveres de tamanduás Bandeiras, tamanduás Mirins, onças, lagartos e farta gama da fauna achatada no longo caminho que corta o caminho. Carlos Drumond “o poeta”, já dizia: “No caminho tinha uma pedra”, mas na rodovia há um bicho morto ou prestes a morrer. A velocidade é o poder de quem tem poder. Os possantes automóveis deslizam na estrada e tropeçam no pobre animal que inocentemente não se modernizou, não melhorou o seu modo de vida, não criou asas, mas, mesmo tendo asas, carcarás e urubus, vez em quando, são atropelados sem chance de usar seus órgãos alados. A velocidade do carro não lhe dá chance. Não nos resta o que fazer. Não temos a faculdade do poder de convencimento de mudar consciências, mudar o modo de dirigir, o mundo não pode voltar atrás!  A velocidade é crescente, os pardais tomam conta das estradas, mas até os pardais são atropelados. O homem despercebido é atropelado, faz-se passarelas, faixas pintadas no chão,  o tempo da parada remete o carro a sair mais rápido para compensar o momento parado.

Se há solução não sei, mas a única certeza é a extinção dos tamanduás e toda cadeia do ecossistema. Ficará apenas o homem a ser atropelado.

Dougraça.

Por mais estranho que pareça, é exatamente assim que as coisas ocorrem…

Um ótimo texto enviado pelo meu amigo Renato Rodrigues:

*(Todos os fatos e situações de multas e exigências são baseados em dados verdadeiros. A sátira não visa atenuar responsabilidades, mas alertar o quanto o tratamento ambiental é desigual e discricionário entre o meio rural e o meio urbano.) *
“Na prática, a teoria é outra.”

Carta do Zé Agricultor para Luis da Cidade

Luis, quanto tempo!
Eu sou o Zé, teu colega de ginásio noturno, que chegava atrasado, porque o transporte escolar do sítio sempre atrasava, lembra né? O Zé do sapato sujo? Tinha professor e colega que nunca entenderam que eu tinha de andar a pé mais de meia légua para pegar o caminhão por isso o sapato sujava.
Se não lembrou ainda eu te ajudo. Lembra do Zé Cochilo… hehehe, era eu. Quando eu descia do caminhão de volta pra casa, já era onze e meia da noite, e com a caminhada até em casa, quando eu ia dormi já era mais de meia-noite
De madrugada pai precisava de ajuda pra tirar leite das vacas. Por isso eu só vivia com sono. Do Zé Cochilo você lembra né Luis?
Pois é. Estou pensando em mudar para viver ai na cidade que nem vocês Não que seja ruim o sítio, aqui é bom. Muito mato, passarinho, ar puro…. Só que acho que estou estragando muito a tua vida e a de teus amigos ai da cidade.
To vendo todo mundo falar que nós da agricultura familiar estamos destruindo o meio ambiente.
Veja só. O sítio de pai, que agora é meu (não te contei, ele morreu e tive que parar de estudar) fica só a uma hora de distância da cidade. Todos os matutos daqui já têm luz em casa, mas eu continuo sem ter porque não se pode
fincar os postes por dentro uma tal de APPA que criaram aqui na vizinhança.
Minha água é de um poço que meu avô cavou há muitos anos, uma maravilha, mas um homem do governo veio aqui e falou que tenho que fazer uma outorga da água e pagar uma taxa de uso, porque a água vai se acabar. Se ele falou deve ser verdade, né Luis?
Pra ajudar com as vacas de leite (o pai se foi, né …) contratei Juca, filho de um vizinho muito pobre aqui do lado. Carteira assinada, salário mínimo, tudo direitinho como o contador mandou. Ele morava aqui com nós num quarto dos fundos de casa. Comia com a gente, que nem da família. Mas vieram umas pessoas aqui, do sindicato e da Delegacia do Trabalho, elas falaram que se o Juca fosse tirar leite das vacas às 5 horas tinha que receber hora extra noturna, e que não podia trabalhar nem sábado nem domingo, mas as vacas daqui não sabem os dias da semana ai não param de fazer leite. Ô, bichos aí da cidade sabem se guiar pelo calendário?
Essas pessoas ainda foram ver o quarto de Juca, e disseram que o beliche tava 2 cm menor do que devia. Nossa! Eu não sei como encumpridar uma cama, só comprando outra né Luis? O candeeiro eles disseram que não podia acender
no quarto, que tem que ser luz elétrica, que eu tenho que ter um gerador pra ter luz boa no quarto do Juca.
Disseram ainda que a comida que a gente fazia e comia juntos tinha que fazer parte do salário dele. Bom Luis, tive que pedir ao Juca pra voltar pra casa, desempregado, mas muito bem protegido pelos sindicatos, pelo fiscais e pelas
leis. Mas eu acho que não deu muito certo. Semana passada me disseram que ele foi preso na cidade porque botou um chocolate no bolso no supermercado. Levaram ele pra delegacia, bateram nele e não apareceu nem sindicato nem
fiscal do trabalho para acudi-lo.
Depois que o Juca saiu eu e Marina (lembra dela, né? casei) tiramos o leite às 5 e meia, ai eu levo o leite de carroça até a beira da estrada onde o carro da cooperativa pega todo dia,isso se não chover. Se chover, perco o leite e dou aos porcos, ou melhor, eu dava, hoje eu jogo fora.
Os porcos eu não tenho mais, pois veio outro homem e disse que a distância do chiqueiro para o riacho não podia ser só 20 metros. Disse que eu tinha que derrubar tudo e só fazer chiqueiro depois dos 30 metros de distância do rio, e ainda tinha que fazer umas coisas pra proteger o rio, um tal de digestor. Achei que ele tava certo e disse que ia fazer, mas só que eu sozinho ia demorar uns trinta dia pran fazer, mesmo assim ele ainda me multou, e pra poder pagar eu tive que vender os porcos as madeiras e as telhas do chiqueiro, fiquei só com as vacas. O promotor disse que desta vez, por esse crime, ele não ai mandar me prender, mas me obrigou a dar 6 cestas básicas pro orfanato da cidade. Ô Luis, ai quando vocês sujam o rio também pagam multa grande né?
Agora pela água do meu poço eu até posso pagar, mas tô preocupado com a água do rio. Aqui agora o rio todo deve ser como o rio da capital, todo protegido, com mata ciliar dos dois lados. As vacas agora não podem chegar no rio pra não sujar, nem fazer erosão. Tudo vai ficar limpinho como os rios ai da cidade. A pocilga já acabou as vacas não podem chegar perto. Só que alguma coisa tá errada, quando vou na capital nem vejo mata ciliar, nem rio limpo. Só vejo água fedida e lixo boiando pra todo lado.
Mas não é o povo da cidade que suja o rio, né Luis? Quem será? Aqui no mato agora quem sujar tem multa grande, e dá até prisão. Cortar árvore então, Nossa Senhora!. Tinha uma árvore grande ao lado de casa que murchou e tava
morrendo, então resolvi derrubá-la para aproveitar a madeira antes dela cair por cima da casa.
Fui no escritório daqui pedir autorização, como não tinha ninguém, fui no Ibama da capital, preenchi uns papéis e voltei para esperar o fiscal vim fazer um laudo, para ver se depois podia autorizar. Passaram 8 meses e ninguém apareceu pra fazer o tal laudo ai eu vi que o pau ia cair em cima da casa e derrubei. Pronto! No outro dia chegou o fiscal e me multou. Já recebi uma intimação do Promotor porque virei criminoso reincidente. Primeiro foi os porcos, e agora foi o pau.. Acho que desta vez vou ficar preso.
Tô preocupado Luis, pois no rádio deu que a nova lei vai dá multa de 500 a 20 mil reais por hectare e por dia. Calculei que se eu for multado eu perco o sítio numa semana. Então é melhor vender, e ir morar onde todo mundo cuida da ecologia.. Vou para a cidade, ai tem luz, carro, comida, rio limpo. Olha, não quero fazer nada errado, só falei dessas coisas porque tenho certeza que a lei é pra todos.
Eu vou morar ai com vocês, Luis. Mais fique tranqüilo, vou usar o dinheiro da venda do sítio primeiro pra comprar essa tal de geladeira. Aqui no sitio eu tenho que pegar tudo na roça. Primeiro a gente planta, cultiva, limpa e só depois colhe pra levar pra casa. Ai é bom que vocês e só abrir a geladeira que tem tudo. Nem dá trabalho, nem planta, nem cuida de galinha, nem porco, nem vaca é só abri a geladeira que a comida tá lá, prontinha, fresquinha, sem precisá de nós, os criminosos aqui da roça.
Até mais Luis.
Ah, desculpe Luis, não pude mandar a carta em papel reciclado pois não existe por aqui, mas aguarde até eu vender o sítio..

Mundo paralelo – O médico e o rio

Deixamos o córrego doente

O rio procura um médico para que este lhe dê o diagnóstico de sua doença. Como de praxe, o rio descreve os sintomas de seus problemas.

Rio - Bom dia sr. doutor, a vida tem sido difícil pra mim, tenho tido crises terríveis de inundação, mal cheiro e depressão.

Médico – bom dia sr. Rio, nossa! Que lástima você se encontra, de longe eu já percebi que a coisa não estava muito boa para o seu lado.

Rio – Então é grave doutor?

Médico – Pelo visto, muito, muito grave, sua aparência não é nada boa, você está cinza! E aqui nesse ponto a coisa está ainda pior, a doença já concretou seu fundo e suas margens.

Rio – Pois é doutor, vieram umas pessoas ai, dizendo que isso era para meu bem, que eu me sentiria melhor com todo esse concreto ao meu redor, mas não vi melhoras, continuo com muita sujeira, muito lixo e muito esgoto, já me sinto inútil, inválido, maltratado. Em épocas de chuvas sintos dores terríveis, em alguns pontos me autoflagelo, arrasando minhas margens, derrubo minhas companheiras árvores, trago toda sorte de coisas para meu fundo, chamo de minhas crises, não tenho mais prazer quando chove, isso que corre por mim não é nem água mais.

Médico – Essa doença é gravíssima, mas é muito mais comum do que imaginamos, as causas são bem claras, vou descrevendo aqui e você depois me diga se todas conferem: urbanização descontrolada, ocupação desordenada das margens, remoção de mata ciliar, lançamentos de esgotos, lançamento de grande volume de águas pluviais, impermeabilização, erosão, assoreamento, lixo.

Rio – Exato, tudo isso e até um pouco mais, estou mal, não me aguento, meu cheiro é terrível.

Médico – E faz quanto tempo que você começou a sentir que estava doente?

Rio – Há exatos 10 anos, no início os sintomas eram mais brandos, mas a medida que a tal da cidade foi crescendo a doença foi piorando, tornou-se aguda, tenho medo de que se torne incurável.

Médico – Se lhe canalizarem todo, e ainda lhe entubarem, fazendo com que você deixe de existir para as pessoas e animais, presumo que a doença se torne de difícil tratamento, se a cabeça das mesmas pessoas que lhe trouxeram esse mal não mudar, possivelmente esse mal se tornará incurável  enquanto existirem seres da espécie humana ao seu redor.

Rio – Queria apenas voltar a viver como antes, do jeito que estou, doente, também trago doenças para todos, contamino tudo ao meu redor, além do mais estou provocando muitos estragos mais pra frente. Eu não queria causar mal a ninguém, mas como não fazer mal se vocês parecem clamar por isso? Todos esses problemas foram e são causados exclusivamente por vocês, não é minha amiga terra, nem a água, nem a chuva. são vocês.

Médico – Infelizmente eu concordo com o que diz, também sou humano e me sinto culpado por isso que passa, a doença, a angústia, a vergonha. Sinto-me triste, impotente diante dos fatos, mas estou aqui agora, quero te ajudar, eu não tinha a menor vontade de olhar pra você, era uma coisa meio inconsciente, peço também que as pessoas parem uma vez ou outra para lhe contemplar,vejo que se cada um fizer sua parte como cidadão, além de cobrar das autoridades a solução disso daqui vai ser bom para você, e bom para todos. Se hoje elas veêm sujeira, se hoje te escondem é por culpa de todos nós, se isso aqui estiver limpo, poderemos ter lazer, melhorar nossa qualidade de vida e ainda acabar com a doença que lhe acomete.

Rio – Eu adorava as crianças brincando em minhas límpidas águas quando isso daqui ao redor era verde e desabitado, as pessoas passavam os fins de semana aqui, se divertiam, hoje torcem o nariz para mim.

Médico – Esse cheiro ruim é causado por excesso de matéria orgânica, então seus amigos começam a lhe limpar, esses amigos cresceram descontroladamente para comer a matéria e transformá-la em outras substâncias que irão alimentar outros organismos quando você estiver com as suas águas com mais oxigênio, é parte de uma cadeia alimentar. Se mais pra frente não existirem mais lançamentos de esgoto você passa a se sentir melhor, os sintomas ficam menos graves.

Rio – Queria ser maior, quem sabe assim eu teria tempo de começar a me sentir melhor. Mas por enquanto não tem como.

Médico – Por isso lhe digo que nessa conversa isolamos o agente causador, não precisamos de microscópio, nem de exames detalhados, nem de equipamentos caros, os patógenos são os próprios humanos, nós somos a doença, mas também o próprio remédio, se quisermos vivermos em harmonia, podemos e devemos lhe curar.

Ouvindo o Arrudas

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O Arrudas é um ribeirão que passa pela região metropolitana de Belo Horizonte MG, e que sofre com os efeitos da expansão urbana, como a grande maioria dos mananciais que cortam as cidades de nosso Brasil.

Ouvindo o Arrudas em  2009

OSVALDO FERREIRA VALENTE

ovalente@tdnet.com.br

Professor titular aposentado da UFV e especialista em hidrologia e manejo de pequenas bacias hidrográficas

Em recente editorial, este jornal chamou a  atenção do leitor para o tamanho do desafio que representam as constantes enchentes do Ribeirão Arrudas e seus afluentes e que atingem boa parte da Grande BH. Ao lê-lo, fiquei imaginando o que diria o próprio Ribeirão.  Resolvi fazer-lhe uma visita  e provocá-lo. Deu certo e ouvi o seguinte, extraído do sussurrar de suas águas:

– Meu caro amigo e observador, aqui estou eu na luta para defender o meu território, ou seja, aquela área que  levei  milhares de anos esculpindo para a minha circulação em tempos de chuvas fortes. Aquelas duas margens, marcadas pelo rebaixamento em relação às  vizinhas, era o meu leito maior, mas resolveram aterrá-las, construir casas, atravessá-las com pontes estreitas, ou até mesmo usá-las para  abertura de  ruas (a tal Avenida Tereza Cristina, por exemplo). Pior ainda, impermeabilizaram a minha bacia e as águas de  chuvas não mais se dirigem aos meus reservatórios subterrâneos. Qualquer chuvinha mais forte, nos dias atuais, obriga-me a transportar grandes volumes de água em pouco tempo. Acabo, sem outra alternativa,  invadindo os espaços que me foram tomados  e termino   responsabilizado pelas tragédias resultantes.

Como o Arrudas parece ter ficado triste,  calando por alguns minutos, tive tempo de analisar suas queixas e pensar em provocá-lo a respeito das ações que estão sendo ventiladas para sua bacia hidrográfica. Mas ele parece ter penetrado em meus pensamentos e voltou a fazer novas considerações:

– Pois é, vocês são muito engraçados, isolaram (pela impermeabilização) o reservatório natural formado pelos lençóis de água subterrâneos e agora pensam em gastar milhões para construção de outros superficiais. Eu sei que muita gente está pensando em ganhar muito dinheiro com tais obras, mas  eu também sei o que estão fazendo com a minha bacia  e não confio nas receitas prescritas. Fiquei assustado quando ouvi que pensam em gastar dois milhões de reais para a implantação de um sistema de monitoramento  e gostaria de saber como surgem esses valores, assim de repente. Não tenho visto especialistas por aqui, mas muitos palpiteiros. Ficaria feliz se a minha bacia fosse bem analisada por pessoas realmente entendidas no assunto. Por que a Prefeitura e o Estado não promovem mesas-redondas com especialistas que não tenham interesses comerciais sobre os meus domínios e possam, assim, ter propostas mais apropriadas para os meus problemas? Por que não tentam  encontrar meios de recarregar os meus lençóis subterrâneos? Por que não pensam em  reter água em um  grande número de pontos? Pensem um pouco sobre as perguntas e venha colaborar comigo, cobrando ações baseadas nos fundamentos hidrológicos  da minha existência.

Calou-se repentinamente. Parece ter-se aborrecido e retomou seu caminho em direção ao Rio das Velhas. Gostaria de ouvi-lo mais e levar autoridades comigo.

Dica do Blog de Apolo Heringer Lisboa

Meco, leve-me junto no seu embornal

vereda

Altair Sales Barbosa*
Publicado no jornal “TRIBUNA DO PLANALTO” em 15/04/2006

Quando da última passagem do cometa de Halley, próximo à orbita da Terra, me encontrava num local que denominei “paraíso”. Muitas lagoas, as veredas se perdiam nas vastidões dos olhares. Caminhando a pé com um grupo de pesquisadores, andávamos dias por entre as vegetações variadas do cerrado. Estávamos buscando afloramentos de arenito silicificado para encontrarmos os vestígios da nossa ancestralidade indígena. Num certo momento, em meio às reflexões e indagações que orientavam nossas noites no acampamento, indaguei ao grupo: será que, quando da próxima vinda do Cometa, este paraíso ainda existirá, para que nossos filhos, e talvez netos, possam ter o privilégio de ver as cenas que hoje tanto nos embelezam?

Neste momento, um dos pesquisadores da equipe, professor Binômino da Costa Lima, o maior entendedor dos segredos do cerrado, conhecido na região de Jataí por “Seu Meco”, disse (não sei se falou sério ou em tom de brincadeira, mas assim ele falou): se nossos governantes e instituições permitirem a destruição desse paraíso e eu ainda me encontrar vivo, não suportarei tamanha dor, pegarei meu embornal, embrenharei por um caminho que só eu conheço, até encontrar minha fonte d’água preferida. Lá descansarei numa pedra e, ouvindo os sons dos passarinhos, tentarei recuperar minhas forças enfraquecidas.

Realmente aquele local era o paraíso! O cerrado viçoso esparramava o cheiro dos frutos que aromatizava as fontes, que jorravam águas para as veredas. Aqui e acolá, avistavam-se bandos de emas, veados do campo e tantos outros animais que nossos olhos brilhavam de alegria. Era tempo de árvores, tempo de rios, tempo de brisas, tempo de inspiração e tempo de muita esperança. Esperança nos homens e, acima de tudo, esperança nos caminhos que a Universidade estava tomando. Era tempo de busca. Busca de novos horizontes, busca de saberes novos e a Universidade se abria às vozes, aos sons e à sabedoria das populações tradicionais, que naquela época ainda estavam fincadas naqueles longínquos rincões. No caminho das águas uma árvore velha observa a velha senhora. Elas são do mesmo tamanho. Elas têm a mesma raiz. Estão ambas sentadas sobre as pedras. Vem a chuva e elas abrem a boca. Vem a tempestade e elas se fincam nas pedras. Vem o sol e elas bebem a chuva. Se curvam diante do sol, como se murchassem. Elas reverenciam.

O tempo ainda não trouxe novamente o Cometa de Halley, passaram-se só 20 anos, mas trouxe a destruição de um edifício de sonhos. São tempos de destruição, tempos murchos.
As plantas do verdejante cerrado foram jogadas ao chão, muitas viraram carvão. As nascentes, que outrora fervilhavam, minguaram lentamente, deixando exposto em alguns locais um torrão endurecido, semelhante a formigueiro abandonado. As lagoas se transformaram em gotas d’água, os covais e os chapadões ostentam extensas monoculturas na época das águas. Quando chega a seca, só se vê no local sombrias nuvens de poeiras. A velha e a árvore mudaram não sei pra onde. No coração certamente não mais carregam uma flor, talvez uma grande dor.

Neste processo, o tempo dos homens falou mais alto, os políticos foram guiados pelo tempo do imediatismo, as transformações vieram pelo tempo acelerado da tecnologia que acentua o tempo do capital excludente,  que gera o tempo da alienação, que criou o tempo do “estranho no ninho” que se debate esperando o tempo…

Hoje o tempo da modernidade é capaz de colocar valor em tudo, até no universo, mas não é capaz de valorar a vida. Por isso, professor Meco, quando se embrenhar por aquele caminho, me leve junto no seu embornal, quem sabe encontraremos a semente geradora de um novo universo.

*Dr. Altair Sales Barbosa, titular do Instituto do Trópico Subúmido da UCG

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