
Por Everton de Paula
Para muitos ela é veneno! Dizem que esta fruta era e continua sendo responsável por matar o gado, principalmente no cerrado. Devido a esta má informação lendária, os donos de terra têm sacrificado os pés da lobeira, provocando a sua extinção num período breve, caso nada for feito em benefício de sua preservação. Chamada também de maçã do cerrado – devido ao cheiro parecido com o da maçã – conhecida também como: jurubebão, berinjela do campo, etc… Veja a explicação do fato d’ela ser uma fruta assassina: devido ao sabor “cheiroso” dela madura, o gado pula cerca, atravessa riachos, valas e quintais em busca desta fruta. Ele come até o caroço, ou melhor, a tampa, que provoca a sua morte (foto). Essa tampa aloja-se na boca de seu estômago, o fechando. Nada mais entra.O gado rumina até mufinar e acaba morrendo.
Então, a ciência de outrora, que estava longe do campo, e o povo, sem saber identificar a causa mortis, lhe atribuiu o fatídico da causa: o veneno!!! Se não fosse essa fatalidade, ela bem poderia chamar-se fruta do boi ou fruta da vaca, como o lobo emprestou seu nome a ela.
Desde criança ouvia as correições quando brincávamos de fazer dela uma bola: “olha, isso é veneno, esse ‘pozinho’ que ela solta também pode cegar”. Coitada! Injustiçada ela amargou por longos e longos anos na amargura! De fato, ela amarga um pouco quando verde, nada insuportável. Mas o amargo a que me refiro é o da injustiça. Os fazendeiros tinham e às vezes ainda têm horror a essa planta. Mal sabem eles que hoje os cientistas a declaram como uma fruta medicinal. Segundo um texto de Paulo Capobianco, essa fruta será muito promissora, neste século, principalmente nas áreas de antibióticos, anticoncepcionais e antiinflamatórios.
Os trabalhos estão sendo desenvolvidos no Laboratório de Pesquisas e Ensino em Síntese Orgânica da Universidade de Brasília,onde já descobriram fartos indícios da produção de esteróides, matéria-prima de diversos medicamentos, que a lobeira oferece.
De acordo, as explicações de divulgador desta planta ela é da família das solanáceas, assim como o tomate, o jiló, a jurubeba. Descobriu-se também, segundo ele, a presença de solasodina na lobeira, elemento básico para a produção de esteróides. Com essa descoberta, a fruta do lobo poderá ser uma grande aliada para o barateamento de muitos medicamentos. Veja, de acordo com a explicação de Capobianco: “cerca de 20 ml medicamentos à venda no Brasil são produzidos a partir de apenas 300 princípios ativos, sendo 10 esteróides que estão entre os insumos mais caros da indústria farmacêutica.
De vilã ela passou a “excelência” do cerrado: as farmácias homeopáticas vendem seu pó, amido ou polvilho em cápsulas para emagrecer, baixar o diabetes, falam até em aliviar dores estomacais, como gastrite..
Sua flor (foto) é usada chá para baixar febre, fazer xarope para fortalecer o pulmão, nos florais é muito usada…
Agora a fruta do lobo reina nos campos do cerrado brasileiro, apesar ainda da resistência e ignorância. Os mais sábios estão começando a fazer a festa.
Minha mãe cortava os pedaços, dava ao gado, sem a tampa, é lógico! Ralava para as galinhas, misturando em farelos, as que apodreciam no chão criavam alguns bichinhos, parecidos com joaninhas, que as galinhas e alguns pássaros deliciavam. O coelho adora sua polpa. Quando passei uns tempos com os índios (veja + em CULTURA BRASILEIRA) eles comiam ela “divez” passada a madura como a gente come uma maçã, faziam refogado. Bom, depois desta convivência com a fruta do lobo, eu também tenho minhas experiências para contar. Tenho uma pequena plantação no terreno da Pousada das Cores, para uso próprio: fazemos doces (aprendi com minha mãe), inventamos bombons (veja RECEITAS) farelo para bolos, vitaminas, pães, etc…, colocamos na farinha enriquecida com casca de ovo, folhas de mandioca, chuchu, batata-doce…
Curiosidade: segundo uma lenda, quem quiser saber a inicial do seu futuro amor, é só cortar ao meio e de relance vai ver a primeira letra do pretendente. Contei esta história para uma ex-freira e ela ao fazê-lo viu o nome de seu namorado de infância, antes do seu convento. Passado alguns anos eles se casaram. Verdade!… Dizem que toda lenda tem um fundo de verdade.
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